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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Feira Santarena


FEIRA SANTARENA

Estrofes compostas em métrica especial, a pedido de WILSON FONSECA, para serem adaptadas a uma velha melodia do folclore tapajônico.

Minha terra tem patchuli
Que perfuma o ar e a cunhantã.
Bolas sei fazer de cernambi.
E farinha? Só “Cucurunã”!

ESTRIBILHO
Eis aí por que te quero bem,
Flor do Tapajós, ó Santarém!

Temos açaí, maracujá,
Manga, muruci, abio, caju,
Ananás, mari, taperebá,
Ata, sapoti, cupuaçu.

O que vou dizer do pajurá,
Fruta boa que só existe aqui,
E da especial curimatã,
Peixe inda melhor que o tambaqui?

Ó gigante azul, meu Tapajós!
Amazonas, és fenomenal!
Cobra Grande vai boiar, feroz:
Ninguém deve ir lá no aningal.

Pra dar sorte, hein? Muiraquitã!
Eu já comprei um e tenho fé.
E se diz também que é talismã
Ver Uirapuru; não sei se é.

Boto grande eu vi matar de arpão,
Mas o principal soube depois:
Olho dele é bom, é sensação
Pra atrair mulher... Me arruma dois!

Se você estiver com bem calor,
Pode conseguir, pra se abanar,
Ventarolas mil, de toda cor!
Venha a Santarém, pois vai gostar!

Emir Bemerguy, 15/06/1967.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Quinze anos

  Poema feito por papai para nossa irmã Lourdinha, quando fez quinze anos.


QUINZE ANOS

À minha filha LOURDINHA.

Transpões, ó virgem, os umbrais secretos
Que conduzem ao mundo encantador
Regido pelos líricos decretos
Desse terno tirano que é o Amor.

Tivesse eu os brindes prediletos
Das criaturas nessa idade em flor
- O sonho lindo, os cândidos projetos –
Hoje os viria em tuas mãos depor.

Mas não dispondo desses dons sublimes,
Somente uns pobres versos te ofereço,
Com a mensagem do meu grande apreço.

Do coração no meigo olhar exprimes
Conhecer os direitos soberanos,
Na graça triunfal dos quinze anos!

15/10/1968.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Samba do Boa Vida

No Dia do Trabalho, um poema curioso feito por papai em 1968, e musicado por ele sobre este assunto:



SAMBA DO BOA VIDA

Música do autor

Não nasci para o tal de trabalho...
Que maldiga de mim, quem quiser!
Levo a sério três coisas na vida:
Futebol, Carnaval e Mulher!

Vagabundo me chamam, às vezes...
Não dou bola a essa gente porque
Tenho tudo o que amo e aprecio:
Futebol, Carnaval e... VOCÊ!


Emir Bemerguy, 18/07/1968.
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Triunfal Consagração


TRIUNFAL CONSAGRAÇÃO

Musicado pelo autor

De dois rios és namorada
Ó cidade idolatrada!
Todo mundo te quer bem!
Leva tempo muito longo
Se começa o mocorongo
A louvar-te, Santarém!
Porque tens tanta beleza,
Penso até que a Natureza
Tem predileção por ti.
Andei por outros recantos:
Fui olhar os seus encantos.
Ah! Se vissem os daqui!...

Qual morena sem vaidade,
Mas bonita de verdade,
Nos cabelos uma flor,
Cada vez que um ano passa
Tens mais vida, tens mais graça,
Santarém do meu amor!
Uma prece comovida
Fiz por ti, terra querida:
Supliquei a Deus Bondoso,
Com fervor no coração,
Triunfal consagração
Num porvir maravilhoso!

Emir Bemerguy, 07/06/1967.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O naufrágio da lua



O NAUFRÁGIO DA LUA

À minha esposa, Berenice


BERENICE convoca-me à janela:
“Olha, meu bem, que encantador clarão!
A Lua cheia, intensamente bela,
Dará ao meu poeta inspiração!”

Contemplamos, mãos dadas, a aquarela
Que Deus pintou na célica amplidão.
Beijando-a ternamente, digo a ela
Algo que tenho bem no coração:

- É deslumbrante a cena, meu amor!
Em ti, no entanto, encontro mais fulgor
Que em toda a luz azul deste luar!

Dos teus olhinhos fito as profundezas,
Vendo a maior de todas as lindezas:
O naufrágio da Lua nesse olhar!...

Emir Bemerguy, 05/08/1974.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cidadela de Bravos

Este poema foi composto em 1968, a pedido do vereador Clementino Lima, para ser a letra do futuro Hino de Santarém (naquela época, não havia ainda um hino oficial). Posteriormente, foi escolhido para hino a bela canção escrita por Paulo Rodrigues dos Santos e musicada pelo maestro Isoca. No dia 22/06/2012, o Dr. Vicente Fonseca musicou esta letra. após ler sua transcrição no blog "O Mocorongo", de Ércio Bemerguy, acrescentando mais uma às suas várias parcerias com papai.


CIDADELA DE BRAVOS


Cintilando aos clarões da alvorada,
Nas brilhantes manhãs da Amazônia,
És a “PÉROLA” imensa, engastada
Nesta azul vastidão tapajônia!

Santarém, cidadela de bravos!
Prometemos aqui todos nós
Defender-te de injúrias e agravos
Com o ardor dos viris Tapajós!

Força alguma jamais deterá
Teu progresso constante e febril
Que repleta de orgulho o Pará
E mais glórias concede ao Brasil!

As razões da grandeza presente
Tua História sublime contém.
Segue, pois, triunfal, para a frente,
Sob as bênçãos de Deus, Santarém!

Emir Bemerguy, 29/05/1968.

sábado, 13 de abril de 2013

Autobiografia em versos



NASCIMENTO, MISÉRIAS E EPITÁFIO DO POETA MENOR


Eu tanto relutei em vir ao mundo
Que de mamãe fui extraído... a ferros!
Nasci roxo de raiva - furibundo!
Muito custando a desferir meus berros!

Com a intuição estranha dos poetas,
Briguei ao pôr a cara neste inferno:
Adivinhando as horas inquietas,
Queria a paz do útero materno!

Para soltar o choro revoltado
Que faz rir sempre a parentela aflita,
Apanhei tapas como um cão danado:
- “Agora, sim! O nenenzinho grita!...”

Feio como raríssimos pimpolhos
- Pés tortos, magricela, cabeçudo! -
Meus pais passaram por cem mil trambolhos:
Para eu ser gente, eles fizeram tudo!

Botas de ferro... Sebo de carneiro...
“Dom Amando”... “Colégio Nazaré”...
E ao doutorar-me no lugar primeiro,
Casei-me - ingratalhão! – e... dei no pé!

Hoje, aos quarenta e dois anos, pondero,
Olhando os rastros que deixei atrás,
Sobre o que fiz na vida - e sou sincero:
Esse balanço não me satisfaz!

Só realizo mínimas parcelas
Do Bem que tanto anseio praticar!
Desperdicei ocasiões tão belas
De mais um pouco me santificar!

Cônscio, porém, de tais limitações,
Prossigo a batalhar em campo aberto:
Um IDEAL motiva-me as ações
E me sustém nas trilhas do deserto:

Quando nasci, chorava eu, sozinho;
Todos sorriam, plenos de alegria.
Quero, meu Deus, que, ao termo do caminho,
Pranteiem todos e só eu sorria!

Desejo, então, como troféu final,
Merecer epitáfio como aquele:
- “Hoje no mundo existe menos mal
Porque Emir Bemerguy passou por ele!...”
 
Emir Bemerguy, 28/4/1975

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Inflação de poetas


INFLAÇÃO DE POETAS

Ao querido amigo WILMAR FONSECA

Tu me perguntas por que faço versos.
Eu te respondo, sim, mas indagando:
- Por que respiras? Por que bebes água
E buscas distrações de vez em quando?

Componho estrofes como quem precisa
Do sol, da chuva, do luar, do vento,
Do riso alegre, da palavra amiga
Para escapar ao tédio cismarento.

Há um detalhe, todavia - saibas:
Nenhuma terra neste mundo tem
Tamanhas sugestões para poemas
Como as possui a minha SANTARÉM!

Nesta Cidade toda gente canta,
Pois a paisagem tal fascínio inspira
Que um verso pronto brinca em cada boca
E em cada peito há maviosa lira!

Originalidade - vês? - não tenho:
Os Mocorongos todos são estetas.
Na linda “ALDEIA DOS TAPAJÓS” eu sou
Apenas UM dentre CEM MIL poetas!...

Emir Bemerguy, 04/08/1975.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Santarém Namoradeira


SANTARÉM NAMORADEIRA

(Prosa poética)

Escuta, ó Santarém:
Sabes que gosto de ti às pampas,
 Mas, às vezes, por isso mesmo,
Eu me zango contigo.
Falo desses teus amores, fáceis e descarados,
Com os dois janotas - AMAZONAS e TAPAJÓS
Que, em doida correria, acima e abaixo,
Vivem a dividir, aos empurrões e aos tapas,
As tuas inconstantes preferências!

Mas que vexame! Isso é feio, moça!
Não fica nada bem a uma filha de família,
E, sobretudo, a uma Princesa como tu!
Daí, a descompostura que te passo agora.
Pareces uma daquelas caboclas de subúrbio,
Bonitinhas, mas sem-vergonhas,
Que borboleteiam de braço em braço,
Não se decidindo por ninguém.

Explico-me:
Se passo, de manhã, lá no Caisinho,
Eu te vejo agradando,
Muito dengosa e sem termo,
A cara antipática e encardida
Do grandalhão AMAZONAS
Que, todo prosa, gargalha, dá cambalhotas,
E acaba rebentando as ventas na areia branca!

Volto, à tarde, e morro de vergonha:
Namoras cinicamente em plena praia
(E que despudorada mini-saia!),
De mãos dadas com o gostosão gabola
- Esse transviado TAPAJÓS
Que escandaliza todo mundo,
Enlaçando-te a cintura
Em meio a um turbilhão de beijos espumantes!

Muito bonito, hein?
E o pior deixei para contar agora:
Quando vem a noite de enluarada claridade,
Esqueces, de repente,
Os dois conquistadores baratos,
E ficas no maior agarramento... COMIGO!
Sim, comigo,
Este teu feio, ciumento e conformado amante,
Que, olhando a Lua,
Não se cansa de te reafirmar
Uma velha, fiel e crescente afeição,
Dizendo-te, ao planger nostálgico de um violão,
Doces banalidades e confidências meigas,

Segredos apaixonados que tu, entretanto,
Logo de manhãzinha,
Por entre risos zombeteiros
E com os cabelos desfeitos pelos ventos da aurora,
Vais levianamente revelar
Ao cretino AMAZONAS!
E tudo recomeça...
É bom que tomes juízo,
Ó minha travessa e formosa Santarém,
Porque se um dia,
Fartos de tanta volubilidade,
Resolvermos nós, os teus três chifrudos noivos,
Te deixar só,
Acabarás ficando mesmo em triste caritó!...

Emir Bemerguy, 05/12/1970.