Papai foi professor de Português durante muitos anos, e sempre teve muito cuidado com a correção gramatical de seus textos. Praticamente todos os livros que tinha em sua biblioteca têm anotações corrigindo erros gramaticais ou de revisão. Quando ele escrevia para o jornal "O Liberal", mandava os artigos por fax e, ao receber o jornal, no domingo, ficava muito irritado quando encontrava erros no seu artigo causados pela digitação feita no jornal. Na imagem abaixo, uma cópia do certificado que recebeu em 1990 ao ganhar o primeiro lugar em concurso de trovas da União Brasileira de Trovadores. Ao perceber que sua trova havia sido transcrita de forma incorreta no documento, ali mesmo papai externou sua irritação, escrevendo "Vão aprender a copiar!..."
Espaço para mostrar um pouco do legado de meu pai, Emir Hermes Bemerguy, nascido em 04/03/1933 e falecido a 13/11/2012. Ele deixou uma quantidade muito grande de material escrito, entre poemas, crônicas, um romance, etc., e irei colocando aqui um pouco desta obra. Como as flores, ele deixou uma "saudade perfumada", que é o título de um dos seus poemas.
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sexta-feira, 5 de abril de 2013
quinta-feira, 28 de março de 2013
Histórias de Pescadores
HISTÓRIAS
DE PESCADORES
Foi há uns dez anos. Entrei no
escritório do empresário Hélcio Amaral e vi uma placa pendurada na parede. Li o
texto e fiquei rindo, a louvar o espirituoso autor anônimo da pequena frase: “Aqui
se reúnem caçadores, pescadores e outros mentirosos”. É apenas meia-verdade
essa velha certeza de que sempre se deve duvidar das histórias narradas por
quem caça ou pesca. Naturalmente, para vergonha nossa, não faltam os sujeitos
exagerados, que costumam aumentar o peso e o tamanho de suas vítimas. A
maioria, porém, conta corretamente o que aconteceu no rio, na selva, no lago,
no mar. Só quem nunca se meteu nessas deliciosas aventuras, fica achando que
tudo é invencionice. Vou repassar a você alguns casos absolutamente verídicos.
Duvide, se quiser.
Hilário Coimbra procurava
tucunarés, arrastando o seu corrico por essas beiradas. Conversava com o
parceiro do bote, quando, de repente, viu a isca de metal erguer-se no ar. Foi
subindo, subindo, até despencar novamente dentro d'água. O sem-vergonha de um
gavião enganou-se e, pensando que era um peixinho vivo, tocou o bico no ferro!
Por um triz não se fisgou no anzol!
José Sarmento, meu robusto amigo
contabilista, ia também corricando ali ao redor da Ilha dos Periquitos. Não
pegava nada - como sempre - até que criou alma nova ao sentir o peso da linha.
Pelo jeito, se não fosse um galho de pau, era um tremendo tucunaré. Foi
recolhendo o fio e acabou tomando um baita susto: havia anzolado um...
mergulhão! O arisco bicho nadava pelo fundo, sendo apanhado pela isca de ferro.
São histórias de pescadores, mas acontecidas e testemunhadas.
Alberto Dezincourt, o velho
Marçal, é o pescador mais completo de Santarém. Conhece do espinhel à tarrafa,
da pinauaca ao arpão, da malhadeira ao corrico. Ele conta que um amigo seu era
tripulante de um grande navio. O barco estava fundeado, chegou a hora de sair
e o comandante mandou levantar ferros. Estranhamente, a máquina puxadora
trabalhava e nada acontecia. Tiveram que convocar mergulhadores para saber que
mistério ocorria lá embaixo. Descobriram que uma colossal jamanta - a arraia do
mar - dormia sobre as âncoras... Diz Marçal, repetindo a narrativa do amigo,
que foi difícil acordar a distinta e fazê-la andar para que o navio se
libertasse. Por esse “causo” não meto a mão no fogo. Parece história de
pescador criativo.
Alfredo Oliveira é o mais antigo
pescador de mergulho que temos em Santarém. Já estraçalhou milhares de enormes
tucunarés, pirapitingas, surubins e o que aparecer. Ainda está em plena forma e
sabe milhões de gostosas histórias, algumas arrepiantes. Viu Mapinguari,
Curupira, Matinta-pereira, ouviu guariba falar com caçador. Conta que ali no
Cais do Porto pegou carreira de uma arraia para ninguém pôr defeito: a bichona
tinha um metro de distância entre um olho e outro! Se o sujeito não boiasse
logo, o monstro o esmagaria, jogando-se várias vezes em cima dele. Quando eu
fui apresentado a essa arraia do Alfredo, lembrei-me da jamanta do Marçal...
Por último, uma historinha de
confiabilidade total. Arnaldo Lisboa, eu e o Guiri puxávamos enormes sardinhas,
à noite, lá de cima do Cais do Porto. Usávamos pedacinhos de camarão quando, em
dado momento, vimos o impossível: Guiri fisgou algo estranho, que se debatia
muito. Jogada a vítima sobre o chão, foi uma gargalhada só, pois um vasto
morcego estava devidamente anzolado! Ao comer a isca, o rato que resolveu ser
aviador ficou preso e deu trabalho para sair da linha. Arnaldo e eu advertimos
o infeliz Guiri: “Quem pega morcego, nunca mais há de pescar nada que preste”.
Desfaz-se a reunião de caçadores, pescadores e outros cidadãos confiáveis.
(Emir Bemerguy – Santarenices)
sexta-feira, 1 de março de 2013
O Natal dos cinco cruzeiros
O texto abaixo foi escrito por meu irmão Lúcio Bemerguy, e entregue aos meus pais no Natal de 2001. Ele relata um episódio que mostra aquilo que passamos a vida inteira vendo: mesmo em dificuldades financeiras, meu pai e minha mãe sempre ajudaram aos necessitados que batiam em nossa porta. Até em sua profissão, de dentistas, boa parte dos atendimentos era papa pessoas que não tinham a menor condição de pagar. Ainda hoje, de vez em quando encontramos pessoas que foram ajudadas por eles, e seu depoimento sempre nos emociona e acrescenta novos capítulos às lições de vida que recebemos em nossa casa.
O NATAL DOS CINCO CRUZEIROS
Em uma noite agradável na
vila de Alter do Chão, estávamos sentados, eu, Patrícia, Tiago e Telma, há uns
quatro ou cinco anos. As crianças terminavam um lanche e como aproximava-se a hora
de irem dormir, adiantei-me em pedir a conta. Quando o garçom se aproximou, notei
que o mesmo nos observava com alguma curiosidade. Seguiu-se mais ou menos o
seguinte diálogo:
- Posso lhe perguntar uma
coisa?
- Claro.
- O senhor é filho do seu
Emir e da dona Berenice?
-
Sim, sou.
- Quando eu lhe vi aqui,
pedi ao outro garçom para trocar comigo, pois queria ter o prazer de atender
alguém da tua família.
Diante da minha curiosidade,
continuou:
- Tu não te lembras de mim?
Eu vendia garrafa e vassoura e sempre passava pela casa de teus pais para...
-
Lembrei! Tu não eras bem lourinho e tinha
outros irmãos parecidos contigo?
- Isso. Era eu e mais cinco
irmãos homens e quatro mulheres. Lá em casa, brigávamos para ir na tua casa
oferecer vassoura, pois várias vezes aconteceu de ser aquela a única chance de
comermos alguma coisa no dia, pois tua mãe sempre dava um jeito de nos alimentar.
E olha... isso não foi só
uma ou duas vezes, foi durante toda a nossa infância. Só que uma vez, aconteceu
uma coisa que eu nunca vou me esquecer...
Com os olhos lacrimosos, continuou:
- Era véspera de Natal. Não
tínhamos nada em casa. Quando eu digo nada, é nada mesmo, pois parece que todos
se uniram pra dizer NÃO. Eu e meus irmãos não vendemos nada, e estávamos com muita
fome. Resolvemos sair para pedir comida nas casas próximas. Não conseguimos
nada, pois nossos vizinhos também passavam necessidade. Resolvemos ir andando
para o centro da cidade pedir em algumas casas onde vendíamos as vassouras e as
garrafas, mas sempre acontecia alguma coisa: ou a casa estava fechada ou os donos
não estavam em casa. Já era quase fim da tarde e não sabíamos o que fazer. Foi
aí que chegamos na tua casa. Tua mãe nos recebeu e nos deu a nossa primeira
refeição daquele dia e, enquanto comíamos, nos perguntou sobre como seria o
Natal em nossa casa. Contamos o que estava acontecendo, e ela pediu para
esperarmos um pouco e entrou. Depois, veio junto com teu pai, que conversou com
a gente sobre a sinceridade do que estávamos falando. Após nos ouvir com atenção,
nos entregou uma nota de cinco cruzeiros para levarmos para casa e fazermos nosso
almoço de Natal. À partir desse dia, teu pai ficou conhecido lá em casa como “o
homem dos cinco cruzeiros do Natal”, pois durante toda a infância, minha e de
meus irmãos, nunca tivemos um almoço de Natal igual àquele.
Já não era só dos olhos do rapaz que brotavam
lágrimas, pois se esse gesto lhe pareceu grandioso, imagine se soubesse, como
hoje eu sei, das dificuldades financeiras que meus pais passavam, mesmo nessa
época de Natal. Da luta e das renúncias para agradar a cada um de nós com
alguns presentes, que tanto feriam o apertadíssimo orçamento doméstico. Após as
despedidas com o garçom, que me deu um forte abraço e me desejou felicidades,
fiquei pensando algumas coisas, enquanto caminhávamos. Pensando que aquele
rapaz tirou de um gesto de meus pais uma lição para sua vida. Pensando que eu
tive a oportunidade de ter uma lição dessas a cada dia, pois sendo seu filho
foi exatamente isso que eu tive, uma lição de vida a cada dia.
Feliz Natal, papai e mamãe!
(Lúcio
Bemerguy - Natal de 2001)
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Sucuri
Mais um trecho do romance "Maromba", de 1975
SUCURI
Entardece. Cansado, o sol se apóia sobre as
copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no
desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de
um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a
primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o
berro horrível: - Aaaiii!... Papaaaiii!...
- A sucuriju pegou o Tuninho! - denuncia,
espavorida, a irmã de sete anos.
Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula
n'água, com a tesoura grande na mão.
- Deixa comigo! - brada, enérgico, o marido,
correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e
salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas
fatais!
Com indizível pavor nos olhos esbugalhados,
lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência
martirizada: - Aaaiii!... Papaaaiii!... Me sarve, papaizinho!... Meus osso tão
quebrando!... Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!...
Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo
alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua
simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor
conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em
seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de
dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente
procura morder o rosto da valente mãe.
Louco de fúria, Presidente acerta a primeira
terçadada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando
rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo,
vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a
sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama,
compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a
criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando
brincava na escada do alpendre.
Antônio não chora há muitos anos e nem
saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto
nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a
mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe
roubar o segundo filho em menos de três meses!
Aplacada a tempestuosa crise emocional que
agitava Maria Flor e postos em calma os chorosos maninhos do falecido, passa-se
a fazer o que a vida (ou a morte?) exige: mandar avisos à vizinhança através do
prestativo afilhado e preparar o velório do pequeno defunto, para, no dia
seguinte, conduzi-lo ao cemitério de Paricatuba. No entanto, fazendo das tripas
coração, Antônio ainda vai substituir o vaqueiro no fornecimento do capim para
a pequena boiada. É que, na várzea, até o sofrimento, às vezes, se torna um
luxo proibido.
Antônio e Maria não dormem um minuto sequer
nessa noite, arrastada e interminável como soro pingando em veia de doente.
Além da mágoa dilacerante de um filho a menos, o caboclo tem seu martírio
ampliado por uma amarga sensação de culpa: acha que deveria ter morto a
sucuriju de qualquer maneira, quando ela pegou o pato. A esposa, porém, já lhe
disse, com o apoio de todos os amigos presentes: - Tira isso da cabeça! Era o
dia dele. Se tu havera de matar essa marvada, o cão mandava logo outra mais
grande do que ela. Foi a vontade de Deus.
É impossível acreditar, contudo, por mais
fatalista que se consiga ser, que o Senhor de todas as misericórdias tenha
desejado mesmo que uma criança morresse tão pavorosamente assim.
Às duas horas da fria madrugada, com os
caboclos jogando baralho, na cozinha, para espantar o sono, começam os dois
cônjuges a conversar, a prestações e em voz baixa, debruçados no parapeito do
alpendre: - Essa nossa vida, Maria, tá mesmo um causo sério - principia,
hesitante, o marido.
Ele nunca mais fumara. Contudo, para acalmar
os nervos esfrangalhados, pita um cigarro que enrolou durante dez minutos, já
sem a prática antiga. Contra os seus hábitos de tagarelice, a mulher continua
muda, a olhar, de mãos no queixo, um ponto invisível na cara da noite escura.
Mais alguns momentos transcorrem. Como quem pensa alto, Presidente fala, de
novo: - Nem que nós havera de se acabar tudinho em boca de cobra ou jacaré, eu
juro que não arredo pé daqui pra canto argum. Para onde, então, a gente podia
se mudar? Pra murrer de fome na cidade, é mais melhor penar na varja. Pelo meno
no verão a gente não véve desinfeliz.
Suspirando fundo, Maria Flor concorda, embora
com alguma grosseria: - Não fica pensando bestera, homem. Eu só ia de vez morar
na cidade se fosse presa por sordado e levada para o xilindró. Aqui a gente
pega bote e dentada de cobra, ferrada de caba, arraia e lacrau. Lá é carro que
mata, é bandido que assarta, é ruindade de patrão e ortoridade que só quer os
pobre como inleitor, engraxate e lavadeira. Tisconjuro!
Dando um tapa no próprio rosto, como
autoflagelação, mas, em verdade, esfarelando um carapanã impertinente, Antônio
confidencia, enquanto atira a bagana do cigarro dentro do rio: - Eu tô com muita
vergonha de ti e dos pirralho, Maria.
Abaixa a cabeça, mas, erguendo-lhe o queixo
com as mãos e fitando meigamente os seus olhos, indaga a esposa, com ternura na
voz: - Mas por que então, meu bem?
Usada com pouca freqüência, a expressão
carinhosa surge no instante psicológico exato. A esperta criatura intuiu
rapidamente a razão determinante do incomum desabafo e se sente na feminina
obrigação de confortar o seu humilhado e másculo companheiro.
Com a dificuldade visível de quem se esforça
querendo vomitar coisa intragável, ele comprime a mão da esposa de encontro ao
próprio coração e diz, num sussurro: - Eu churei na ilharga de vocês. E churei
como criança. Macho não chora, Maria. Só lagrima.
Lutando para não dar continuidade ao teimoso
pranto que já lhe ensopa os olhos amarelados, Maria Flor aperta-lhe fortemente
a mão calosa. Não pode dizer nada, ainda. Mas assim que consegue engolir o nó
da garganta, segreda-lhe ao ouvido: - Não pensa mais nisso, meu amurzinho.
Vergonha é robar e ser marvado. Tu só fez churar a morte tão triste do nosso
Tuninho. - Detém-se, engasgada. Mas logo completa, num só fôlego: - Eu inda te
quero mais bem dispôs dessa desgraça. Sei que tu é macho pra cachurro, mas tu
não deixou de ter um coração bom e amuroso dentro do peito.
E, de rostos unidos, os dois emocionados
caboclos ali ficam, durante longos minutos. Na cozinha, o jogo de baralho
prossegue, animado, a até uns palavrões já saíram por lá. É preciso, porém,
interromper o doce colóquio para servir mais uma rodada de café quentinho aos
participantes do velório. Como foi uma criança que morreu, não se bebe cachaça.
Só em vigília de adulto os varzeiros gostam de tomar umas duas ou três.
(Emir Bemerguy - "Maromba" - 1975)
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
O velório
Mais um trecho do romance "Maromba". Aqui se conta a história do velório de um ribeirinho.
Maria Flor está
cerzindo umas roupinhas das crianças. Atraída por movimentos de remos forcejando contra a correnteza, levanta os
olhos do trabalho: uma canoa com dois vaqueiros chega à
casa da fazenda.
- Ei, seu Presidente!
- O papai não tá, responde um dos garotos.
- Que é, Pedroca? - interroga a patroa, reconhecendo o caboclo. ~
De cabeça baixa, o reforçado varzeiro comunica:
- Seu Romuardo Bicudo morreu, não faz bocado. Paresque foi besterada no coração dele. O enterro é amanhã e a gente viemo convidar pro quarto.
Espantada com
a brutal notícia, Maria faz o sinal da cruz,
reza em silêncio e promete
que combinará com o
esposo, ao chegar com
Zé Potoca, o jeito de
comparecerem à residência enlutada.
Nesse mundo líquido, cujo único e frágil cordão umbilical com a
civilização é um rádio de pilha, velório - ou “quarto”, como eles chamam - é uma forma de divertimento, quase uma festa.
Sem lazer algum, a braços com uma luta feroz e
diuturna pela simples sobrevivência, os
ribeirinhos transformam a vigília para um defunto em desinibida reunião social
onde nada falta: comilança, beberança, baralho, dominó, mexericos. Por isso, ninguém perde um desses encontros e cada família colabora com
alguma coisa para amenizar a situação dos
herdeiros sem herança. Como ocorre nos puxiruns, leva-se um pouco de querosene, farinha, café, bolacha, velas de cera e cachaça.
Deixando as crianças com
Zé Potoca, lá se vai, à noite, o casal. Apesar de a distância ser pequena, como está ventando muito, preferem usar o barco “Flô das onda II” para vencer os quatro quilômetros da viagem. Como contribuição para o ato fúnebre, levam um
quilo de farinha, açúcar e meio litro de querosene.
Encontram muita gente e pouco choro. Protestante
não é, em geral, espalhafatoso
ante a morte, pois, convicto de que
o extinto está salvo só por causa da fé que possuía, de certo modo exulta quando um irmão se vai, porque ele ganhou o céu antecipadamente, apenas dizendo “Jesus é
meu Senhor”. Após cumprimentar os parentes do
falecido, cada qual se arruma como pode. As
mulheres fofocam na ampla cozinha, enquanto
os homens fazem avaliações de prejuízos na sala da frente. Não há velas acesas e nem se fala
em rosário de Nossa Senhora, desde que o morto era Testemunha de Jeová, não tendo necessidade alguma dessas gorjetas aos santos para
transpor, lampeiro, os
portões do paraíso...
Conversa vai e vem, café aparece e some,
cachaça chega e não dá para
quem quer. A família é
protestante, mas respeita
os costumes da várzea e deixa beber quem
quiser. Começa, então, um animado “sete e meio”, o famoso e fácil jogo de baralho. Formam-se três rodas,
sendo uma na mesa grande e duas no chão, à
luz de resfolegantes “Aladins” - candeeiros de luxo,
usados somente em ocasiões especiais.
- Hum!... Essa curimatá muquiada
tá muito porreta!
- proclama Nhuquinha Catauari, farejando o ar, de
cara erguida. O cheiro da coirona mata a catinga do querosene. Vou tirar a barriga velha
da misera nesse quarto
do Bicudo.
-
Bota mais uma aqui,
Rosa! - pede Miró Sardinha. Hoje eu quero encher a cara pra não me alembrar dos perjuízo dessa
enchente do cão.
E
a temperatura vai esquentando... Saem anedotas
pouco familiares...
As reações evoluem das discretas risadinhas particulares às
estrondosas gargalhadas coletivas... Come-se
enquanto se joga baralho, dominó e conversa
fora. Brinca-se. A noite avança. De repente,
a queixa insultuosa: - Tu tá rubando, seu
curno! - grita
Zeca Tralhoto, a
esfregar as cartas do baralho no focinho de Juca Toró.
Com
várias doses de aguardente no lombo, o ofendido nem pede explicações: planta o braço
no pé do ouvido de Tralhoto, quase tão bêbado quanto ele próprio e... o tempo fecha! Lá
da cozinha, a
mulherada berra:
- Meu Deus!
Respeitem o falecido!...
Não
se respeita nada. Reviram-se as cadeiras, candeeiros
são quebrados. Até o defunto desabou da cama
onde estava, pois, generalizado o conflito
e com ambiente meio escuro, um dos brigões
caiu por cima dele.
Porre como se encontrava, julgou que
fosse um adversário e não teve dúvidas: encheu de murros
as ventas de Romualdo e o fez rolar para o chão, a pontapés!
Quase
todos trocam
coices e poucos tentam acalmar os valentes, pondo
alguma ordem naquela tremenda bagunça. Diversos caíram no rio, à força de empurrões,
tapas ou pisões, e a velha Nica Farofa está de cabeça partida, tal o
entusiasmo de um cascudo que lhe acertaram com um dominó.
Musculosos e abstêmios, os filhos de Romualdo
Bicudo, ajudados por Presidente, gritam, pedem calma, por entre bofetões
e gravatas distribuídos entre os que
precisavam aprender a criar vergonha, ao menos em velórios.
A
muito custo, após dez minutos de pau solto e escoriações de
larguras variáveis, o ambiente retoma a perdida
paz. O defunto readquire
sua dignidade comprometida, providenciam-se curativos. Os mais bêbados são postos em sossego, amarrados
nas canoas, e a liturgia prossegue, entre
novas doses de café, merendas e joguinhos de
dominó e baralho. Ninguém bebeu mais, porque a cana acabou.
A noite já exibe
vergonhosas
rugas de velhice remelenta. Não tardará muito a ceder, emburrada como fedelho de
castigo, o trono a um novíssimo dia de luzes
e de luto, de lutas
sem lucros.
Sepultaram
Romualdo no
cemitério de Paricatuba e ele se enfiou no
túmulo com os óculos na cara esmurrada: era sua
derradeira vontade,
expressa nos estertores da morte. Com
sacrifício, pagara as lentes esverdeadas no crediário da “Ótica
do Povão”, lá na cidade, e não queria deixá-las para ninguém. Talvez pretendesse apreciar melhor o
festim dos vermes sobre suas carnes...
Voltando ao lar, Maria Flor comenta, entre dois bocejos: - Puxa! Esse quarto do seu Romuardo até que não foi ruim. Tem uns tão chato
que dá até vontade de dormir. A briga foi
animada e eu só não gustei de jogarem o defunto no chão.
Antônio concorda, com uma restrição: - É. Eu só não achei mais melhor porque até agora não
sei quem foi
o filho duma égua
que me sapecou um baita beliscão na bochecha da bunda,
na hora da porrada. Quase arranca um pedaço. Vou até fumentar com andiroba e saro
Vute!
- finaliza a companheira. Quem sabe, meu bem, se
não foi o falecido Bicudo. Benzendo-se, explica
a hipótese: -
Ele era tão brincalhão!...
(Emir Bemerguy - trecho do romance "Maromba" - 1975)
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Os "assustados" de outrora
OS “ASSUSTADOS” DE OUTRORA
Apesar da humana e
incorrigível tendência de vivermos bendizendo tempos passados, vítimas de uma
estranha amnésia que nos faz esquecer tantas surras dolorosas que levamos “em
nossa época”, nem tudo, nem tudo - sejamos honestos com a moçada... foi assim tão “risonho e franco” nas décadas
precedentes... É claro que a memória, num generoso
processo
seletivo, filtra impurezas vivenciais, depura as evocações de todo o cascalho
imprestável, tentando, gentilmente, oferecer-nos apenas as pérolas
rebrilhantes daquilo que passou. Mas, numa sincera e desapaixonada análise
retrospectiva, convenhamos que certos hábitos de nossas gostosas e modorrentas cidades,
há trinta ou quarenta anos, constituíam algo de se dar constantes graças a Deus
por terem acabado. Se, de um modo geral, a existência corria com muito menos atropelos
do que nestes neurotizantes dias de hoje, havia umas coisinhas que... Nossa
Senhora! Os tais “assustados” carnavalescos, por exemplo...
A juventude atual não faz a mínima idéia daquelas “brincadeiras”
que, não poucas vezes, degeneravam em sopapos e desaforos envolvendo dezenas de pessoas. Vejamos como funcionava o apreciado divertimento.
Como geralmente só
existia um clube social em cada comunidade, não era possível a utilização
diária da única sede para as quentes folias momescas; tinha-se, então, que
dançar em residências, preferindo-se naturalmente os prédios mais amplos, com
grandes salas para as “cobrinhas”. O problema principal consistia no seguinte:
quase todas as famílias, se fossem previamente consultadas, recusariam a
licença para a festança em seus
domínios, sabendo das dores de cabeça que isso sempre trazia. Diante da
difícil situação, o diabo inspirou aos foliões a engenhosa fórmula dos “assustados”: sem qualquer aviso, invadia-se, de repente, o lar escolhido
secretamente para a noitada, colocando-se os perplexos moradores ante um fato
consumado. O “susto” realmente não era pequeno...
Não custa avaliar os
transtornos decorrentes de tais molecagens coletivas. Terminado o jantar, a
família preparava-se para a diária conversa à porta da rua, em que a vida alheia era
criteriosamente vasculhada... Súbito, como um furacão, o bloco irrompia, casa
adentro, com a charanga puxando
valentemente o cortejo, ao som do trombeteante “Zé Pereira”!
Era um “Deus-nos-acuda”, com os moradores
correndo, atordoados, arrastando móveis, pedindo, aos berros inúteis, que se
tivesse cuidado com a cristaleira, enquanto o pagode pegava embalagem entre
formidáveis gargalhadas gozativas dos felizes invasores!
Entretanto, nem todos
os cidadãos acatavam pacificamente o abuso, e alguns reagiam como homens, até
com violência, para conter a maré montante que transformaria o refúgio
doméstico num pandemônio de muitas horas. Apesar de eu poder referir outras
experiências, pois também minha família, em
Belterra,
foi vítima da cafajestada, prefiro fazer especial alusão a uma encrenca momesca
ocorrida aqui em Santarém, que
se tornou famosa, dado o gabarito dos personagens nela envolvidos.
Uns moços da elite mocoronga dos
anos trinta programaram o “assustado” daquela noite, elegendo, para o ataque, a
ampla residência do doutor Augusto Montenegro, advogado local e homônimo do
célebre político que foi governador do Estado do Pará. Apesar de isoladas
advertências de alguns rapazes mais ponderados, sobre o gênio explosivo do figurão,
nada impediu que o
plano
fosse posto em prática. Contratado o conjunto musical, entre cujos componentes
se incluíam Wilson Dias da Fonseca e Joaquim Toscano, tudo ficou pronto para a
alegre batalha carnavalesca. “Viva o Zé Pereira!” e... vamos lá!
Embora se temesse,
ninguém acreditava realmente que o causídico levasse às últimas consequências
seu protesto contra a pândega. Contudo, quando o esgoelante batalhão transpôs a
soleira do prédio visado, a velha genitora do proprietário caiu no chão, dura,
com uma aparente síncope cardíaca. Louco de raiva, doutor Montenegro apanhou um
imenso revólver, gritando:
- Vai morrer todo
mundo!... Vocês mataram minha mãe, cachorros!... Não sobra nenhum!...
Mas, antes de atirar,
o angustiado filho procurou acudir a ofegante senhora - providenciais segundos
de que se prevaleceram os heróicos foliões para escapar, em furiosas correrias...
Contam testemunhas que saía gente pelas janelas, havendo linguarudos capazes de
garantir que até buraco de fechadura deu passagem a espavoridos súditos de Momo...
Felizmente, a idosa
dama não morreu. Mas, depois do cômico, e quase trágico, sururu, os adeptos
dos “assustados” passaram a agir com um pouco menos de imprudência,
compreendendo que, em certas ocasiões, eles acabavam se “assustando” mais que os próprios
moradores das
casas que escolhiam para as inocentes fuzarcas de fevereiro...
E, por causa de enguiços assim,
às aloucadas e indesejáveis invasões carnavalescas foram rareando, novos
clubes surgiram na cidade, até que se
extinguiram
de
vez (deixando
sempre alguma saudade...), os improvisados arrasta-pés, repondo a paz nas almas dos inquietos senhores
de mansões com amplos espaços...
Também por isso, Deus seja louvado!
(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)
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