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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Diploma

Papai foi professor de Português durante muitos anos, e sempre teve muito cuidado com a correção gramatical de seus textos. Praticamente todos os livros que tinha em sua biblioteca têm anotações corrigindo erros gramaticais ou de revisão. Quando ele escrevia para o jornal "O Liberal", mandava os artigos por fax e, ao receber o jornal, no domingo, ficava muito irritado quando encontrava erros no seu artigo causados pela digitação feita no jornal. Na imagem abaixo, uma cópia do certificado que recebeu em 1990 ao ganhar o primeiro lugar em concurso de trovas da União Brasileira de Trovadores. Ao perceber que sua trova havia sido transcrita de forma incorreta no documento, ali mesmo papai externou sua irritação, escrevendo "Vão aprender a copiar!..."

quinta-feira, 28 de março de 2013

Histórias de Pescadores



HISTÓRIAS DE PESCADORES

Foi há uns dez anos. Entrei no escritório do empresário Hélcio Amaral e vi uma placa pendurada na parede. Li o texto e fiquei rindo, a louvar o espirituoso autor anônimo da pequena frase: “Aqui se reúnem caçadores, pescadores e outros mentirosos”. É apenas meia-verdade essa velha certeza de que sempre se deve duvidar das histórias narradas por quem caça ou pesca. Naturalmente, para vergonha nossa, não faltam os sujeitos exagerados, que costumam aumentar o peso e o tamanho de suas vítimas. A maioria, porém, conta corretamente o que aconteceu no rio, na selva, no lago, no mar. Só quem nunca se meteu nessas deliciosas aventuras, fica achando que tudo é invencionice. Vou repassar a você alguns casos absolutamente verídicos. Duvide, se quiser.
Hilário Coimbra procurava tucunarés, arrastando o seu corrico por essas beiradas. Conversava com o parceiro do bote, quando, de repente, viu a isca de metal erguer-se no ar. Foi subindo, subindo, até despencar novamente dentro d'água. O sem-vergonha de um gavião enganou-se e, pensando que era um peixinho vivo, tocou o bico no ferro! Por um triz não se fisgou no anzol!­
José Sarmento, meu robusto amigo contabilista, ia também corricando ali ao redor da Ilha dos Periquitos. Não pegava nada - como sempre - até que criou alma nova ao sentir o peso da linha. Pelo jeito, se não fosse um galho de pau, era um tremendo tucunaré. Foi recolhendo o fio e acabou tomando um baita susto: havia anzolado um... mergulhão! O arisco bicho nadava pelo fundo, sendo apanhado pela isca de ferro. São histórias de pescadores, mas acontecidas e testemunhadas.­
Alberto Dezincourt, o velho Marçal, é o pescador mais completo de Santarém. Conhece do espinhel à tarrafa, da pinauaca ao arpão, da malhadeira ao corrico. Ele conta que um amigo seu era tripulante de um grande navio. O barco estava fundeado, chegou a­ hora de sair e o comandante mandou levantar ferros. Estranhamente, a máquina puxadora trabalhava e nada acontecia. Tiveram que convocar mergulhadores para saber que mistério ocorria lá embaixo. Descobriram que uma colossal jamanta - a arraia do mar - dormia sobre as âncoras... Diz Marçal, repetindo a narrativa do amigo, que foi difícil acordar a distinta e fazê-la andar para que o navio se libertasse. Por esse “causo” não meto a mão no fogo. Parece história de pescador criativo.­­
Alfredo Oliveira é o mais antigo pescador de mergulho que temos em Santarém. Já estraçalhou milhares de enormes tucunarés, pirapitingas, surubins e o que aparecer. Ainda está em plena forma e sabe milhões de gostosas histórias, algumas arrepiantes. Viu Mapinguari, Curupira, Matinta-pereira, ouviu guariba falar com caçador. Conta que ali no Cais do Porto pegou carreira de uma arraia para ninguém pôr defeito: a bichona tinha um metro de distância entre um olho e outro! Se o sujeito não boiasse logo, o monstro o esmagaria, jogando-se várias vezes em cima dele. Quando eu fui apresentado a essa arraia do Alfredo, lembrei-me da jamanta do Marçal...­
Por último, uma historinha de confiabilidade total. Arnaldo Lisboa, eu e o Guiri puxávamos enormes sardinhas, à noite, lá de cima do Cais do Porto. Usávamos pedacinhos de camarão quando, em dado momento, vimos o impossível: Guiri fisgou algo estranho, que se debatia muito. Jogada a vítima sobre o chão, foi uma gargalhada só, pois um vasto morcego estava devidamente anzolado! Ao comer a isca, o rato que resolveu ser aviador ficou preso e deu trabalho para sair da linha. Arnaldo e eu advertimos o infeliz Guiri: “Quem pega morcego, nunca mais há de pescar nada que preste”. Desfaz-se a reunião de caçadores, pescadores e outros cidadãos confiáveis.­­
(Emir Bemerguy – Santarenices)

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Natal dos cinco cruzeiros

O texto abaixo foi escrito por meu irmão Lúcio Bemerguy, e entregue aos meus pais no Natal de 2001. Ele relata um episódio que mostra aquilo que passamos a vida inteira vendo: mesmo em dificuldades financeiras, meu pai e minha mãe sempre ajudaram aos necessitados que batiam em nossa porta. Até em sua profissão, de dentistas, boa parte dos atendimentos era papa pessoas que não tinham a menor condição de pagar. Ainda hoje, de vez em quando encontramos pessoas que foram ajudadas por eles, e seu depoimento sempre nos emociona e acrescenta novos capítulos às lições de vida que recebemos em nossa casa.


O NATAL DOS CINCO CRUZEIROS
Em uma noite agradável na vila de Alter do Chão, estávamos sentados, eu, Patrícia, Tiago e Telma, há uns quatro ou cinco anos. As crianças terminavam um lanche e como aproximava-se a hora de irem dormir, adiantei-me em pedir a conta. Quando o garçom se aproximou, notei que o mesmo nos observava com alguma curiosidade. Seguiu-se mais ou menos o seguinte diálogo:
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Claro.
- O senhor é filho do seu Emir e da dona Berenice?
- Sim, sou.
- Quando eu lhe vi aqui, pedi ao outro garçom para trocar comigo, pois queria ter o prazer de atender alguém da tua família.
Diante da minha curiosidade, continuou:
- Tu não te lembras de mim? Eu vendia garrafa e vassoura e sempre passava pela casa de teus pais para...
- Lembrei! Tu não eras bem lourinho e tinha outros irmãos parecidos contigo?
- Isso. Era eu e mais cinco irmãos homens e quatro mulheres. Lá em casa, brigávamos para ir na tua casa oferecer vassoura, pois várias vezes aconteceu de ser aquela a única chance de comermos alguma coisa no dia, pois tua mãe sempre dava um jeito de nos alimentar. E olha... isso não foi só uma ou duas vezes, foi durante toda a nossa infância. Só que uma vez, aconteceu uma coisa que eu nunca vou me esquecer...
Com os olhos lacrimosos, continuou:
- Era véspera de Natal. Não tínhamos nada em casa. Quando eu digo nada, é nada mesmo, pois parece que todos se uniram pra dizer NÃO. Eu e meus irmãos não vendemos nada, e estávamos com muita fome. Resolvemos sair para pedir comida nas casas próximas. Não conseguimos nada, pois nossos vizinhos também passavam necessidade. Resolvemos ir andando para o centro da cidade pedir em algumas casas onde vendíamos as vassouras e as garrafas, mas sempre acontecia alguma coisa: ou a casa estava fechada ou os donos não estavam em casa. Já era quase fim da tarde e não sabíamos o que fazer. Foi aí que chegamos na tua casa. Tua mãe nos recebeu e nos deu a nossa primeira refeição daquele dia e, enquanto comíamos, nos perguntou sobre como seria o Natal em nossa casa. Contamos o que estava acontecendo, e ela pediu para esperarmos um pouco e entrou. Depois, veio junto com teu pai, que conversou com a gente sobre a sinceridade do que estávamos falando. Após nos ouvir com atenção, nos entregou uma nota de cinco cruzeiros para levarmos para casa e fazermos nosso almoço de Natal. À partir desse dia, teu pai ficou conhecido lá em casa como “o homem dos cinco cruzeiros do Natal”, pois durante toda a infância, minha e de meus irmãos, nunca tivemos um almoço de Natal igual àquele.
não era só dos olhos do rapaz que brotavam lágrimas, pois se esse gesto lhe pareceu grandioso, imagine se soubesse, como hoje eu sei, das dificuldades financeiras que meus pais passavam, mesmo nessa época de Natal. Da luta e das renúncias para agradar a cada um de nós com alguns presentes, que tanto feriam o apertadíssimo orçamento doméstico. Após as despedidas com o garçom, que me deu um forte abraço e me desejou felicidades, fiquei pensando algumas coisas, enquanto caminhávamos. Pensando que aquele rapaz tirou de um gesto de meus pais uma lição para sua vida. Pensando que eu tive a oportunidade de ter uma lição dessas a cada dia, pois sendo seu filho foi exatamente isso que eu tive, uma lição de vida a cada dia.
Feliz Natal, papai e mamãe!
(Lúcio Bemerguy - Natal de 2001)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sucuri


Mais um trecho do romance "Maromba", de 1975

SUCURI

Entardece. Cansado, o sol se apóia sobre as copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o berro horrível: - Aaaiii!... Papaaaiii!...
- A sucuriju pegou o Tuninho! - denuncia, espavorida, a irmã de sete anos.
Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula n'água, com a tesoura grande na mão.
- Deixa comigo! - brada, enérgico, o marido, correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas fatais!
Com indizível pavor nos olhos esbugalhados, lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência martirizada: - Aaaiii!... Papaaaiii!... Me sarve, papaizinho!... Meus osso tão quebrando!... Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!...
Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente procura morder o rosto da valente mãe.
Louco de fúria, Presidente acerta a primeira terçadada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo, vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama, compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando brincava na escada do alpendre.
Antônio não chora há muitos anos e nem saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe roubar o segundo filho em menos de três meses!
Aplacada a tempestuosa crise emocional que agitava Maria Flor e postos em calma os chorosos maninhos do falecido, passa-se a fazer o que a vida (ou a morte?) exige: mandar avisos à vizinhança através do prestativo afilhado e preparar o velório do pequeno defunto, para, no dia seguinte, conduzi-lo ao cemitério de Paricatuba. No entanto, fazendo das tripas coração, Antônio ainda vai substituir o vaqueiro no fornecimento do capim para a pequena boiada. É que, na várzea, até o sofrimento, às vezes, se torna um luxo proibido.
Antônio e Maria não dormem um minuto sequer nessa noite, arrastada e interminável como soro pingando em veia de doente. Além da mágoa dilacerante de um filho a menos, o caboclo tem seu martírio ampliado por uma amarga sensação de culpa: acha que deveria ter morto a sucuriju de qualquer maneira, quando ela pegou o pato. A esposa, porém, já lhe disse, com o apoio de todos os amigos presentes: - Tira isso da cabeça! Era o dia dele. Se tu havera de matar essa marvada, o cão mandava logo outra mais grande do que ela. Foi a vontade de Deus.
É impossível acreditar, contudo, por mais fatalista que se consiga ser, que o Senhor de todas as misericórdias tenha desejado mesmo que uma criança morresse tão pavorosamente assim.
Às duas horas da fria madrugada, com os caboclos jogando baralho, na cozinha, para espantar o sono, começam os dois cônjuges a conversar, a prestações e em voz baixa, debruçados no parapeito do alpendre: - Essa nossa vida, Maria, tá mesmo um causo sério - principia, hesitante, o marido.
Ele nunca mais fumara. Contudo, para acalmar os nervos esfrangalhados, pita um cigarro que enrolou durante dez minutos, já sem a prática antiga. Contra os seus hábitos de tagarelice, a mulher continua muda, a olhar, de mãos no queixo, um ponto invisível na cara da noite escura. Mais alguns momentos transcorrem. Como quem pensa alto, Presidente fala, de novo: - Nem que nós havera de se acabar tudinho em boca de cobra ou jacaré, eu juro que não arredo pé daqui pra canto argum. Para onde, então, a gente podia se mudar? Pra murrer de fome na cidade, é mais melhor penar na varja. Pelo meno no verão a gente não véve desinfeliz.
Suspirando fundo, Maria Flor concorda, embora com alguma grosseria: - Não fica pensando bestera, homem. Eu só ia de vez morar na cidade se fosse presa por sordado e levada para o xilindró. Aqui a gente pega bote e dentada de cobra, ferrada de caba, arraia e lacrau. Lá é carro que mata, é bandido que assarta, é ruindade de patrão e ortoridade que só quer os pobre como inleitor, engraxate e lavadeira. Tisconjuro!
Dando um tapa no próprio rosto, como autoflagelação, mas, em verdade, esfarelando um carapanã impertinente, Antônio confidencia, enquanto atira a bagana do cigarro dentro do rio: - Eu tô com muita vergonha de ti e dos pirralho, Maria.
Abaixa a cabeça, mas, erguendo-lhe o queixo com as mãos e fitando meigamente os seus olhos, indaga a esposa, com ternura na voz: - Mas por que então, meu bem?
Usada com pouca freqüência, a expressão carinhosa surge no instante psicológico exato. A esperta criatura intuiu rapidamente a razão determinante do incomum desabafo e se sente na feminina obrigação de confortar o seu humilhado e másculo companheiro.
Com a dificuldade visível de quem se esforça querendo vomitar coisa intragável, ele comprime a mão da esposa de encontro ao próprio coração e diz, num sussurro: - Eu churei na ilharga de vocês. E churei como criança. Macho não chora, Maria. Só lagrima.
Lutando para não dar continuidade ao teimoso pranto que já lhe ensopa os olhos amarelados, Maria Flor aperta-lhe fortemente a mão calosa. Não pode dizer nada, ainda. Mas assim que consegue engolir o nó da garganta, segreda-lhe ao ouvido: - Não pensa mais nisso, meu amurzinho. Vergonha é robar e ser marvado. Tu só fez churar a morte tão triste do nosso Tuninho. - Detém-se, engasgada. Mas logo completa, num só fôlego: - Eu inda te quero mais bem dispôs dessa desgraça. Sei que tu é macho pra cachurro, mas tu não deixou de ter um coração bom e amuroso dentro do peito.
E, de rostos unidos, os dois emocionados caboclos ali ficam, durante longos minutos. Na cozinha, o jogo de baralho prossegue, animado, a até uns palavrões já saíram por lá. É preciso, porém, interromper o doce colóquio para servir mais uma rodada de café quentinho aos participantes do velório. Como foi uma criança que morreu, não se bebe cachaça. Só em vigília de adulto os varzeiros gostam de tomar umas duas ou três.
(Emir Bemerguy - "Maromba" - 1975)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O velório

  Mais um trecho do romance "Maromba". Aqui se conta a história do velório de um ribeirinho.


Maria Flor está cerzindo umas roupinhas das crianças. Atraída por movimentos de remos forcejando contra a correnteza, levanta os olhos do trabalho: uma canoa com dois vaqueiros chega à casa da fazenda.
- Ei, seu Presidente!
- O papai não tá,  responde um dos garotos.
- Que é, Pedroca? - interroga a patroa, reconhecendo o caboclo.         ~
De cabeça baixa, o reforçado varzeiro comunica:
- Seu Romuardo Bicudo morreu, não faz bocado. Paresque foi besterada no coração dele. O enterro é amanhã e a gente viemo convidar pro quarto.
Espantada com a brutal notícia, Maria faz o sinal da cruz, reza em silêncio e promete que combinará com o esposo, ao chegar com Zé Potoca, o jeito de comparecerem à residência enlutada.
Nesse mundo líquido, cujo único e frágil cordão umbilical com a civilização é um rádio de pilha, velório - ou “quarto”, como eles chamam - é uma forma de divertimento, quase uma festa. Sem lazer algum, a braços com uma luta feroz e diuturna pela simples sobrevivência, os ribeirinhos transformam a vigília para um defunto em desinibida reunião social onde nada falta: comilança, beberança, baralho, dominó, mexericos. Por isso, ninguém perde um desses encontros e cada família colabora com alguma coisa para amenizar a situação dos herdeiros sem herança. Como ocorre nos puxiruns, leva-se um pouco de querosene, farinha, café, bolacha, velas de cera e cachaça.
Deixando as crianças com Zé Potoca, lá se vai, à noite, o casal. Apesar de a distância ser pequena, como está ventando muito, preferem usar o barco “Flô das onda II” para vencer os quatro quilômetros da viagem. Como contribuição para o ato fúnebre, levam um quilo de farinha, açúcar e meio litro de querosene.
Encontram muita gente e pouco choro. Protestante não é, em geral, espalhafatoso ante a morte, pois, convicto de que o extinto está salvo só por causa da fé que possuía, de certo modo exulta quando um irmão se vai, porque ele ganhou o céu antecipadamente, apenas dizendo “Jesus é meu Senhor”. Após cumprimentar os parentes do falecido, cada qual se arruma como pode. As mulheres fofocam na ampla cozinha, enquanto os homens fazem avaliações de prejuízos na sala da frente. Não há velas acesas e nem se fala em rosário de Nossa Senhora, desde que o morto era Testemunha de Jeová, não tendo necessidade alguma dessas gorjetas aos santos para transpor, lampeiro, os portões do paraíso...
Conversa vai e vem, café aparece e some, cachaça chega e não dá para quem quer. A família é protestante, mas respeita os costumes da várzea e deixa beber quem quiser. Começa, então, um animado “sete e meio”, o famoso e fácil jogo de baralho. Formam-se três rodas, sendo uma na mesa grande e duas no chão, à luz de resfolegantes “Aladins” - candeeiros de luxo, usados somente em ocasiões especiais.
- Hum!... Essa curimatá muquiada tá muito porreta! - proclama Nhuquinha Catauari, farejando o ar, de cara erguida. O cheiro da coirona mata a catinga do querosene. Vou tirar a barriga velha da misera nesse quarto do Bicudo.
- Bota mais uma aqui, Rosa! - pede Miró Sardinha. Hoje eu quero encher a cara pra não me alembrar dos perjuízo dessa enchente do cão.
E a temperatura vai esquentando... Saem anedotas pouco familiares... As reações evoluem das discretas risadinhas particulares às estrondosas gargalhadas coletivas... Come-se enquanto se joga baralho, dominó e conversa fora. Brinca-se. A noite avança. De repente, a queixa insultuosa: - Tu tá rubando, seu curno! - grita Zeca Tralhoto, a esfregar as cartas do baralho no focinho de Juca Toró.
Com várias doses de aguardente no lombo, o ofendido nem pede explicações: planta o braço no pé do ouvido de Tralhoto, quase tão bêbado quanto ele próprio e... o tempo fecha! Lá da cozinha, a mulherada berra: - Meu Deus! Respeitem o falecido!...
Não se respeita nada. Reviram-se as cadeiras, candeeiros são quebrados. Até o defunto desabou da cama onde estava, pois, generalizado o conflito e com ambiente meio escuro, um dos brigões caiu por cima dele. Porre como se encontrava, julgou que fosse um adversário e não teve dúvidas: encheu de murros as ventas de Romualdo e o fez rolar para o chão, a pontapés!
Quase todos trocam coices e poucos tentam acalmar os valentes, pondo alguma ordem naquela tremenda bagunça. Diversos caíram no rio, à força de empurrões, tapas ou pisões, e a velha Nica Farofa está de cabeça partida, tal o entusiasmo de um cascudo que lhe acertaram com um dominó. Musculosos e abstêmios, os filhos de Romualdo Bicudo, ajudados por Presidente, gritam, pedem calma, por entre bofetões e gravatas distribuídos entre os que precisavam aprender a criar vergonha, ao menos em velórios.
A muito custo, após dez minutos de pau solto e escoriações de larguras variáveis, o ambiente retoma a perdida paz. O defunto readquire sua dignidade comprometida, providenciam-se curativos. Os mais bêbados são postos em sossego, amarrados nas canoas, e a liturgia prossegue, entre novas doses de café, merendas e joguinhos de dominó e baralho. Ninguém bebeu mais, porque a cana acabou. A noite já exibe vergonhosas rugas de velhice remelenta. Não tardará muito a ceder, emburrada como fedelho de castigo, o trono a um novíssimo dia de luzes e de luto, de lutas sem lucros.
Sepultaram Romualdo no cemitério de Paricatuba e ele se enfiou no túmulo com os óculos na cara esmurrada: era sua derradeira vontade, expressa nos estertores da morte. Com sacrifício, pagara as lentes esverdeadas no crediário da “Ótica do Povão”, lá na cidade, e não queria deixá-las para ninguém. Talvez pretendesse apreciar melhor o festim dos vermes sobre suas carnes...
Voltando ao lar, Maria Flor comenta, entre dois bocejos: - Puxa! Esse quarto do seu Romuardo até que não foi ruim. Tem uns tão chato que dá até vontade de dormir. A briga foi animada e eu só não gustei de jogarem o defunto no chão.
Antônio concorda, com uma restrição: - É. Eu só não achei mais melhor porque até agora não sei quem foi o filho duma égua que me sapecou um baita beliscão na bochecha da bunda, na hora da porrada. Quase arranca um pedaço. Vou até fumentar com andiroba e saro
Vute! - finaliza a companheira. Quem sabe, meu bem, se não foi o falecido Bicudo. Benzendo-se, explica a hipótese: - Ele era tão brincalhão!... 

(Emir Bemerguy - trecho do romance "Maromba" - 1975)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os "assustados" de outrora



OS ASSUSTADOS DE OUTRORA

Apesar da humana e incorrigível tendência de vivermos bendizendo tempos passados, vítimas de uma estranha amnésia que nos faz esquecer tantas surras dolorosas que levamos “em nossa época”, nem tudo, nem tudo - sejamos honestos com a moçada... foi assim tão “risonho e franco” nas décadas precedentes... É claro que a memória, num genero­so processo seletivo, filtra impurezas vivenciais, depura as evocações de todo o cascalho imprestável, tentando, gentilmente, oferecer­-nos apenas as pérolas rebrilhantes daquilo que passou. Mas, numa sin­cera e desapaixonada análise retrospectiva, convenhamos que certos hábitos de nossas gostosas e modorrentas cidades, há trinta ou quarenta anos, constituíam algo de se dar constantes graças a Deus por terem acabado. Se, de um modo geral, a existência corria com muito menos a­tropelos do que nestes neurotizantes dias de hoje, havia umas coisi­nhas que... Nossa Senhora! Os tais “assustados” carnavalescos, por exemplo...
A juventude atual não faz a mínima idéia daquelas “brincadeiras” que, não poucas vezes, degeneravam em sopapos e desaforos envolvendo dezenas de pessoas. Vejamos como funcionava o apreciado divertimento.
Como geralmente só existia um clube social em cada comunidade, não era possível a utilização diária da única sede para as quentes folias momescas; tinha-se, então, que dançar em residências, preferin­do-se naturalmente os prédios mais amplos, com grandes salas para as “cobrinhas”. O problema principal consistia no seguinte: quase todas as famílias, se fossem previamente consultadas, recusariam a licença para a festança em seus domínios, sabendo das dores de cabeça que is­so sempre trazia. Diante da difícil situação, o diabo inspirou aos foliões a engenhosa fórmula dos “assustados”: sem qualquer aviso, invadia-se, de repente, o lar escolhido secretamente para a noitada, colocando-se os perplexos moradores ante um fato consumado. O “susto” realmente não era pequeno...
Não custa avaliar os transtornos decorrentes de tais molecagens coletivas. Terminado o jantar, a família preparava-se para a diária conversa à porta da rua, em que a vida alheia era criteriosamente vasculhada... Súbito, como um furacão, o bloco irrompia, casa adentro, com a charanga puxando valentemente o cortejo, ao som do trombe­teante “Zé Pereira”!
Era um “Deus-nos-acuda”, com os moradores correndo, atordoados, arrastando móveis, pedindo, aos berros inúteis, que se tivesse cuida­do com a cristaleira, enquanto o pagode pegava embalagem entre formidáveis gargalhadas gozativas dos felizes invasores!
Entretanto, nem todos os cidadãos acatavam pacificamente o abuso, e alguns reagiam como homens, até com violência, para conter a maré montante que transformaria o refúgio doméstico num pandemônio de muitas horas. Apesar de eu poder referir outras experiências, pois também minha família, em Belterra, foi vítima da cafajestada, prefiro fazer especial alusão a uma encrenca momesca ocorrida qui em Santarém, que se tornou famosa, dado o gabarito dos personagens nela envolvidos.
Uns moços da elite mocoronga dos anos trinta programaram o “assustado” daquela noite, elegendo, para o ataque, a ampla residên­cia do doutor Augusto Montenegro, advogado local e homônimo do céle­bre político que foi governador do Estado do Pará. Apesar de isoladas advertências de alguns rapazes mais ponderados, sobre o gênio explo­sivo do figurão, nada impediu que o plano fosse posto em prática. Contratado o conjunto musical, entre cujos componentes se incluíam Wil­son Dias da Fonseca e Joaquim Toscano, tudo ficou pronto para a ale­gre batalha carnavalesca. “Viva o Zé Pereira!” e... vamos lá!
Embora se temesse, ninguém acreditava realmente que o causídico levasse às últimas consequências seu protesto contra a pândega. Contudo, quando o esgoelante batalhão transpôs a soleira do prédio visado, a velha genitora do proprietário caiu no chão, dura, com uma aparente síncope cardíaca. Louco de raiva, doutor Montenegro apanhou um imenso revólver, gritando:
- Vai morrer todo mundo!... Vocês mataram minha mãe, cachorros!... Não sobra nenhum!...
Mas, antes de atirar, o angustiado filho procurou acudir a ofegan­te senhora - providenciais segundos de que se prevaleceram os heróicos foliões para escapar, em furiosas correrias... Contam testemunhas que saía gente pelas janelas, havendo linguarudos capazes de garantir que até buraco de fechadura deu passagem a espavoridos súditos de Momo...
Felizmente, a idosa dama não morreu. Mas, depois do cômico, e qua­se trágico, sururu, os adeptos dos “assustados” passaram a agir com um pouco menos de imprudência, compreendendo que, em certas ocasiões, eles acabavam se “assustando” mais que os próprios moradores das casas que escolhiam para as inocentes fuzarcas de fevereiro...
E, por causa de enguiços assim, às aloucadas e indesejáveis in­vasões carnavalescas foram rareando, novos clubes surgiram na cidade, até que se extinguiram de vez (deixando sempre alguma saudade...), os improvisados arrasta-pés, repondo a paz nas almas dos inquietos senhores de mansões com amplos espaços...
Também por isso, Deus seja louvado!
 
(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)