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sábado, 9 de março de 2013

ALAS


No dia 04/03/2013, quando papai faria 80 anos, seu irmão, meu tio Ércio Bemerguy, foi empossado na cadeira que ele ocupava na Academia de Letras e Artes de Santarém (ALAS). Também foi feita uma "Sessão da Saudade", em memória de papai. Abaixo, o discurso proferido por tio Ércio na ocasião (Fonte - Blog "O Mocorongo"):

Discurso de Ercio Bemerguy, na ALAS

Permitam-me iniciar este meu pronunciamento, expressando o meu sincero sentimento de gratidão ao ilustre confrade Hélcio Amaral de Souza, que, com gentis palavras, dirigiu-me generosos elogios, decorrentes, talvez, da nossa sólida e antiga amizade iniciada em sala de aula do nosso querido Colégio Dom Amando.
Prezados confrades, queridas confreiras, senhores e senhoras: Todos aspiramos à imortalidade, senão do corpo, mas da alma. Pelo menos da alma. Nem todos externam esse anseio abertamente, porque é impossível, inalcançável, estranho à condição humana.
Mas vivemos para ter o impossível, para conquistar o inalcançável, para fazer das estranhezas eventos comuns. Tão comuns que poderão até se tornar banais.
A aventura humana tem sido assim: a busca eterna, a ousadia permanente de afrontar situações aparentemente imodificáveis, que ora podem servir apenas para nossos luxos e confortos, ora podem representar a melhoria substancial das condições de vida.
Nós, acadêmicos, não somos imortais. Imortal é o que legamos, é o que deixamos. Nós morremos. Ficam nossas obras.
Nossas vidas murcham e fenecem. Permanecem, em grande parte, os frutos daquilo que semeamos.
Perduram os sonhos que poderão ser edificados, em benefício das gerações que virão no curso de tempos intangíveis.
Esta respeitável, honorável Academia de Letras e Artes de Santarém, à qual agora tenho o orgulho de pertencer, expressa perfeitamente os limites entre a imortalidade e os sonhos.
Aqui, nesta augusta Academia – Suprema Corte da cultura e da inteligência santarenas, nossas referências são homens e mulheres que já se foram, que já nos deixaram.
Nossas referências imortais, que hoje velam por nós na Eternidade, eram mortais. Por isso nos deixaram. Por isso, transformaram-se em saudades.
Seus sonhos, suas obras, as sementes que plantaram, os edificantes exemplos de conduta que nos legaram, esses permanecem e permanecerão. Para todo o sempre.
Lembro, nesse sentido, de Dom Tiago Ryan, Bispo de Santarém e Patrono da cadeira 38, que agora passo a ocupar e que teve como primeiro ocupante Dom Lino Vombommel, também bispo desta Diocese.
Como tantos aqui entre nós, convivi intensamente com Dom Tiago. Tive a ventura de conhecer-lhe os méritos não apenas no que dizia, mas no que fazia.
Dom Tiago fez por Santarém o que muitos santarenos ainda não fizeram por esta Cidade. Amou Santarém como sua terra. E tanto é assim que está sepultado em nosso chão, como se estivesse a regá-lo nas entranhas, com as santas emanações de um espírito límpido e de uma alma elevada como a dele.
Dom Tiago é sonho vivo, é obra perene. Está vivo para sempre.
Lembro, também, de meu irmão Emir Hermes da Cunha Bemerguy, cuja morte pranteamos há pouco mais de três meses.
Eu jamais poderia imaginar que iria sucedê-lo nesta Academia. Jamais poderia imaginar que me sentaria na cadeira que um poeta, um escritor e um cidadão da sua estirpe ocupou.
Falar de Emir Bemerguy, descrevê-lo, mencionar suas obras, dar enlevo aos seus versos e suas prosas, tudo isso, enfim, é muito pouco diante do que ele representou para a cultura santarena e do Estado do Pará.
Emir Bemerguy é aquele que enfrentou espantosas agruras na vida, muitas delas descritas em detalhes no seu livro "Diário de um Convertido". Mas nunca se deixou conspurcar por fraquezas d'alma e por vícios de caráter.
Emir Bemerguy é aquele que pescava ao luar. Ou mesmo às escuras. Pescando, fisgava do fundo dos rios os sonhos que os levaram a transportar-se para poesias que nos fizeram cantar, embalar nossas ilusões. Poesias que, não raro, nos fizeram chorar.
Emir Bemerguy, meu irmão e mestre. Meu amigo, meu ídolo, e um de meus grandes exemplos. Eu nunca haverei de te substituir. Nunca haverei de ser como tu foste. Mas prometo, pelo menos, ocupar com dignidade a cadeira que ultimamente foi tua.
Como Dom Tiago, Emir Bemerguy também é sonho vivo, é obra perene.
Senhoras e Senhores, mais do que nos permitir a sensação de imortalidade, ingressar nesta Academia de Letras e Artes de Santarém nos inspira a convicção de que amar Santarém, mesmo não tendo nascido aqui, como foi o caso de Emir e dom Tiago, é contribuir para firmar esta cidade e esta região como polos irradiadores de cultura.
De minha parte estou certo de que busquei, na medida de minha capacidade, dos meus esforços e dos meios de que dispunha, promover a cultura santarena da melhor forma possível.
Como locutor da Rádio Rural de Santarém e tendo ainda atuado na Televisão Tapajós, apresentei programas que revelaram muitos talentos artísticos, entre cantores, cantoras, músicos, poetas e compositores.
O Programa E-29 Show, que por tantos anos comandei na Casa Cristo Rei, com a participação valiosa de meu parceiro e amigo-irmão Edinaldo Mota, não apenas se tornou um sucesso de público e de audiência enquanto durou, como se consolidou como um canal para dar divulgação aos valores desta terra.
A felicidade de ter contribuído concretamente para elevar a cultura santarena é um sentimento que, devo confessar, me gratifica enormemente. Sei, todavia, que minha missão não está encerrada.
Mesmo afastado do rádio há muitos anos, agora na convivência indescritivelmente prazerosa de minha mulher Albanira, filhos, genros, noras e netos, sinto que posso, ainda, contribuir grandemente, junto com meus colegas acadêmicos, para engrandecer a cultura desta terra tão querida.
É isso, aliás, o que tem sido feito elogiavelmente por esta ALAS, que merece as nossas mais ternas homenagens, os nossos mais sinceros respeitos e o nosso mais decidido apoio por tudo o que tem realizado nestes seus 9 anos de funcionamento.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores, cumpre-me, por justiça, fazer um sincero agradecimento aos acadêmicos que me escolheram para ocupar a vaga decorrente da partida de Emir Bemerguy. De modo especial, agradeço ao confrade Odilson Matos que, generosamente, fez a indicação do meu nome.
A Odilson não me ligam somente laços de amizade, mas de fraternidade. O colega de Banco da Amazônia tornou-se, no curso dos anos, um irmão que junto comigo partilhou a notável experiência de promover valores e talentos por este Tapajós a fora.
Odilson, como eu, também sabe que trabalhar pela dignificação de valores culturais que nos identifiquem com nossa terra, com nossa gente, não é missão fácil, porque nos impõe desafios. Mas é para superar desafios que precisamos viver.
Não fosse assim, não acalentaríamos sonhos, não nos deixaríamos inebriar pela sensação de imortalidade, não lutaríamos para impedir que feneçam as boas obras e para evitar que murchem os imorredouros exemplos.
Que eu possa, com a ajuda, com o entusiasmo, e o apoio  de meus colegas acadêmicos, buscar sempre a construção de sonhos. Até mesmo dos sonhos impossíveis.
É isso que sinceramente almejo. É isso que desejo de coração. É o que peço a Deus e a Nossa Senhora da Conceição, nossa Santa Padroeira.
Muito obrigado.

terça-feira, 5 de março de 2013

Charge

Homenagem em forma de charge feita por Sérgio Fonseca - o Gusti - em 1992.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ao amor que fica



 Ao amor que fica,
Lila Bemerguy
Hoje, 4 de março de 2013, nosso pai Emir Bemerguy faria 80 anos de vida. Ele não ficou para a festa e partiu em novembro do ano passado. Passados pouco mais de três meses de sua morte, embora o tempo cicatrize devagar as feridas, ainda sofremos com a sua falta. Aos poucos a saudade não será mais doída, sabemos. Somente boas lembranças restarão.
Lembranças que no caso dele, são feitas em versos, fotografias... tudo bem arrumadinho por ele. Mas para uma pessoa essa ferida é maior, mais profunda. Nossa mãe, Berenice. Com a morte do companheiro, ela ficou feito um passarinho balado, um barco com a vela rota. 
Pensando no que ia escrever nessa ocasião, só me ocorreu falar sobre esse amor que perdura após  58 anos de convivência.  Os que amam ou já amaram, sabem o quanto o amor é um sentimento peculiar. Surge, fica, e ao sair, deixa rastros. Ou de dor ou de saudade. O amor desses dois,  sinceramente, nunca vi tão forte. O “até que a morte os separe” não funcionou. Ela continua a amá-lo, apaixonadamente. Chico Buarque disse sobre a saudade do ser amado: “Oh, pedaço de mim/ oh, metade arrancada de mim...”
Não é a toa.  A vida juntos foi marcada por alegrias, e grandes dores, como quando viram morrer a filha aos 14 anos, Telma Suely. Era criança, mas lembro o quanto sofreram. Mas, sobretudo, o que ficou marcado em mim e nos meus irmãos, foi o amor dos dois. Amor feito de uma rosa sob a xícara de café, com um versinho... De um “eu te amo” escrito com batom no espelho, e de versos, muitos versos. São incontáveis os que fez dedicados a ela.
Ele a adorava, e como é de praxe dos românticos, dizia que não merecia mulher tão especial...Aos dez anos de casados, escreveu no diário: “És como aquelas taças preciosas que a gente toma entre as mãos com extremo cuidado...”
O amor ficou gravado nas fotografias, nas letras. Uma das pastas das muitas que ele organizou era toda dedicada a ela. No diário, desde os primeiros contatos com a jovem Berenice, em 1954, na faculdade de Odontologia, já deixava escapar o quanto era especial. E assim, foi.
Fez versos no primeiro encontro, no casamento, e a cada ano dos 58 que passaram juntos. Era a sua musa maior: “Sou poeta, mas sem esse seu jeitinho encantador  de ser mulher, sem esse andar miúdo e gracioso, sem os olhos bonitos que esparramam luar em minha trajetória de errante peregrino...eu não sentiria no fundo d’alma a inspiração de onde emergem tantos poemas e canções...”
Certa vez, em uma viagem de mamãe à Belém, ele disse: “Ela passará somente quatro dias afastada e meu coração já está deste tamanhinho...”E  tinham dezenove anos de casados! Nem em Paris ele a esqueceu. Escreveu lá o “Pobre poema de Paris”: “Adeus minha Berenice! Só não morro por um triz! Deus confirma o que eu te disse: Sem ti, esqueço Paris!” Era 12/06/1997, dia dos namorados.
A canção diz que a vida é pequena para tanto amor. Viveriam eles mais 50, 100 anos juntos, se a vida assim fosse. É em nome desse amor que presto essa homenagem aos 80 anos desse pai, que se estivesse por aqui receberia dela um abraço carinhoso. Como presente, o que podemos te dar hoje é a promessa de cuidar de tua jóia mais preciosa com todo o amor do mundo. E dizer que ela não te esqueceu.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Falta de material

Uma explicação àqueles que acompanham o blog por terem diminuído os posts: é que moro em Belém e a maior parte da obra de papai continua em Santarém. O que postei até agora foi material que trouxe comigo quando fui até Santarém por ocasião de sua morte. Na semana do carnaval devo passar alguns dias na Pérola do Tapajós, e então deverei coletar bastante material para mostrar. Até lá, vou mostrando uma ou outra coisa que ainda tenho por aqui.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sucuri


Mais um trecho do romance "Maromba", de 1975

SUCURI

Entardece. Cansado, o sol se apóia sobre as copas da mataria azul, reunindo esforços e coragem para o mergulho no desconhecido, de onde boiará, de manhãzinha, consumando o milagre triunfal de um novo dia. Entretanto, ainda está bem claro e Antônio Presidente atira a primeira cuia com água sobre o corpo, num gostoso banho, quando reboa pelo ar o berro horrível: - Aaaiii!... Papaaaiii!...
- A sucuriju pegou o Tuninho! - denuncia, espavorida, a irmã de sete anos.
Como um raio, Maria Flor, que costurava, pula n'água, com a tesoura grande na mão.
- Deixa comigo! - brada, enérgico, o marido, correndo com o facão afiado. Dá uma trombada na menina, atirando-a longe e salta quase em cima do monstro que aperta a esperneante criança em suas roscas fatais!
Com indizível pavor nos olhos esbugalhados, lutando desesperadamente para se livrar da triturante pressão, ruge a inocência martirizada: - Aaaiii!... Papaaaiii!... Me sarve, papaizinho!... Meus osso tão quebrando!... Mamãezinha do meu coração! Aaaiii!...
Os quatro irmãos da vítima fazem tremendo alarido de medo e compaixão, enquanto se trava formidável combate aquático. Sua simples visão é suficiente para fulminar covardes ou cardíacos. Maria Flor conseguiu agarrar a cabeçorra da enorme cobra e tenta introduzir a tesoura em seus olhos, pondo, na briga desigual, toda a força que lhe dá a alma rasgada de dor e ódio. Escancarando a bocarra onde se agita a língua bífida, a serpente procura morder o rosto da valente mãe.
Louco de fúria, Presidente acerta a primeira terçadada na fera, que logo começa a afrouxar o torniquete assassino, dando rabanadas violentas que fazem um escachoante tumulto na água suja. Repetindo, vezes sem conta, os violentos golpes, o alucinado pai termina matando a sucuriju. Mas, quando retira o menino daquele inferno de sangue e lama, compreende, com um profundo soluço, que tudo foi inútil: toda fraturada, a criança acaba de morrer, por asfixia! Recebera o bote fatídico da cobra quando brincava na escada do alpendre.
Antônio não chora há muitos anos e nem saberia dizer quando isso ocorreu pela última vez. Todavia, com o garoto morto nos braços, exausto da luta feroz, o pobre pai, agasalhando o cadáver sobre a mesa da cozinha, não consegue reter o pranto convulsivo. O rio acaba de lhe roubar o segundo filho em menos de três meses!
Aplacada a tempestuosa crise emocional que agitava Maria Flor e postos em calma os chorosos maninhos do falecido, passa-se a fazer o que a vida (ou a morte?) exige: mandar avisos à vizinhança através do prestativo afilhado e preparar o velório do pequeno defunto, para, no dia seguinte, conduzi-lo ao cemitério de Paricatuba. No entanto, fazendo das tripas coração, Antônio ainda vai substituir o vaqueiro no fornecimento do capim para a pequena boiada. É que, na várzea, até o sofrimento, às vezes, se torna um luxo proibido.
Antônio e Maria não dormem um minuto sequer nessa noite, arrastada e interminável como soro pingando em veia de doente. Além da mágoa dilacerante de um filho a menos, o caboclo tem seu martírio ampliado por uma amarga sensação de culpa: acha que deveria ter morto a sucuriju de qualquer maneira, quando ela pegou o pato. A esposa, porém, já lhe disse, com o apoio de todos os amigos presentes: - Tira isso da cabeça! Era o dia dele. Se tu havera de matar essa marvada, o cão mandava logo outra mais grande do que ela. Foi a vontade de Deus.
É impossível acreditar, contudo, por mais fatalista que se consiga ser, que o Senhor de todas as misericórdias tenha desejado mesmo que uma criança morresse tão pavorosamente assim.
Às duas horas da fria madrugada, com os caboclos jogando baralho, na cozinha, para espantar o sono, começam os dois cônjuges a conversar, a prestações e em voz baixa, debruçados no parapeito do alpendre: - Essa nossa vida, Maria, tá mesmo um causo sério - principia, hesitante, o marido.
Ele nunca mais fumara. Contudo, para acalmar os nervos esfrangalhados, pita um cigarro que enrolou durante dez minutos, já sem a prática antiga. Contra os seus hábitos de tagarelice, a mulher continua muda, a olhar, de mãos no queixo, um ponto invisível na cara da noite escura. Mais alguns momentos transcorrem. Como quem pensa alto, Presidente fala, de novo: - Nem que nós havera de se acabar tudinho em boca de cobra ou jacaré, eu juro que não arredo pé daqui pra canto argum. Para onde, então, a gente podia se mudar? Pra murrer de fome na cidade, é mais melhor penar na varja. Pelo meno no verão a gente não véve desinfeliz.
Suspirando fundo, Maria Flor concorda, embora com alguma grosseria: - Não fica pensando bestera, homem. Eu só ia de vez morar na cidade se fosse presa por sordado e levada para o xilindró. Aqui a gente pega bote e dentada de cobra, ferrada de caba, arraia e lacrau. Lá é carro que mata, é bandido que assarta, é ruindade de patrão e ortoridade que só quer os pobre como inleitor, engraxate e lavadeira. Tisconjuro!
Dando um tapa no próprio rosto, como autoflagelação, mas, em verdade, esfarelando um carapanã impertinente, Antônio confidencia, enquanto atira a bagana do cigarro dentro do rio: - Eu tô com muita vergonha de ti e dos pirralho, Maria.
Abaixa a cabeça, mas, erguendo-lhe o queixo com as mãos e fitando meigamente os seus olhos, indaga a esposa, com ternura na voz: - Mas por que então, meu bem?
Usada com pouca freqüência, a expressão carinhosa surge no instante psicológico exato. A esperta criatura intuiu rapidamente a razão determinante do incomum desabafo e se sente na feminina obrigação de confortar o seu humilhado e másculo companheiro.
Com a dificuldade visível de quem se esforça querendo vomitar coisa intragável, ele comprime a mão da esposa de encontro ao próprio coração e diz, num sussurro: - Eu churei na ilharga de vocês. E churei como criança. Macho não chora, Maria. Só lagrima.
Lutando para não dar continuidade ao teimoso pranto que já lhe ensopa os olhos amarelados, Maria Flor aperta-lhe fortemente a mão calosa. Não pode dizer nada, ainda. Mas assim que consegue engolir o nó da garganta, segreda-lhe ao ouvido: - Não pensa mais nisso, meu amurzinho. Vergonha é robar e ser marvado. Tu só fez churar a morte tão triste do nosso Tuninho. - Detém-se, engasgada. Mas logo completa, num só fôlego: - Eu inda te quero mais bem dispôs dessa desgraça. Sei que tu é macho pra cachurro, mas tu não deixou de ter um coração bom e amuroso dentro do peito.
E, de rostos unidos, os dois emocionados caboclos ali ficam, durante longos minutos. Na cozinha, o jogo de baralho prossegue, animado, a até uns palavrões já saíram por lá. É preciso, porém, interromper o doce colóquio para servir mais uma rodada de café quentinho aos participantes do velório. Como foi uma criança que morreu, não se bebe cachaça. Só em vigília de adulto os varzeiros gostam de tomar umas duas ou três.
(Emir Bemerguy - "Maromba" - 1975)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Fantasmas pastando...



FANTASMAS PASTANDO...

“Tal é o destino dos que em si confiam: um rebanho recolhido ao cemitério, que a Morte leva a pastar...” - Salmo 48,15

Quando visito cemitérios, passo longos momentos pensando na multidão que, até ao toque da trombeta final, se esconde sob os meus pés. E não consigo fugir da implacável certeza: logo mais - hoje mesmo, amanhã ou daqui a uma década - também eu terei naufragado nesse mar de sete palmos...­
Ao deparar com o versículo que abre esta página, reagi como se ele funcionasse à semelhança de uma espoleta, deflagrando em meu cérebro súbitas associações de idéias. Esquisito, não é? Os defuntos são vistos como um rebanho que a Morte leva a pastar nas alamedas do cemitério...­
A veia do poeta surge na porta: vejo intermináveis manadas de vultos fantasmais percorrendo o Campo Santo no silêncio sinistro de noites enluaradas... Imagino os magnatas de outrora, os deuses de ontem, os mendigos e os reis - todos, lado a lado, absolutamente iguais e esqueléticos, atendendo aos acenos orientadores da Megera que os conduz. E calculo a extensão do arrependimento dos que dissiparam a vida... Penso nas dimensões eternais da alegria daqueles que consumiram os seus anos fazendo o bem...­­
A Morte... Nenhuma outra meditação pode ser tão proveitosa como o hábito de se refletir, todos os dias, sobre o fim de tudo... sobre o começo de tudo... Mas, tragicamente, a maioria dos homens recusa-se a isso - por medo, por “arejamento mental” ou pela ilusão de que a ciência dará um jeito de não se morrer mais...
Medalhas... Diplomas... Fortunas... Glórias... Amores... Pompas... Mesquinharias... Grandezas... Concupiscências... Invejas... Ruindades... Tudo, tudo recolhido ao cemitério, como se atira sucata num depósito!... O que parecia eterno, durou um fugaz momento: vinte anos... meio século... E agora? E agora, José!...
Juízo, meu irmão! Não nos esqueçamos em momento algum: somos pó e ao pó retornaremos a qualquer instante! Procuremos viver de tal modo que desse pó imundo possa voar ao céu uma alma santa, que não teme o Tribunal de Deus! Impossível? Humanamente, sim. Mas a graça divina é “infinitamente capaz de nos dar muito além do que pedimos e imaginamos”, como lembra o Apóstolo. Dizendo de outra maneira: Cristo fecunda a nossa esterilidade se abrirmos o coração a Ele! E tudo fica tão fácil!­­

(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos - Meditações” – 1975) 

domingo, 30 de dezembro de 2012

O macaco e o coco



O MACACO E O COCO

“As coisas que juntaste, para quem serão? Assim acontece com o homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.” - Lucas 12,20-21

Conta-se que em algumas ilhas da Indonésia existe uma espécie ele macaquinhos particularmente dóceis e brincalhões. Os nativos descobriram uma engenhosa forma de capturá-los com facilidade, sem maltratar os simpáticos bichinhos.­
Apanham um coco, descascam-no e fazem nele um buraco suficiente para passar a mão vazia do símio. Lá dentro colocam uma pedra pequena e deixam a isca no local onde mora a macacada. Não demora muito, lá vem o curioso animal: apanha o coco, olha através do orifício e vê o objeto que puseram ali. Sem perder tempo segura a pedrinha com firmeza. Logo aparecem os caçadores para o simples trabalho de agarrar o pequeno palerma. Ele fechou a mãozinha com a pedra, não consegue mais retirá-la porque já não passa pelo buraco, mas... não larga o seu tesouro!
Quando eu soube da história acima, pensei nas pessoas tão apegadas aos bens mundanos. Sei, por exemplo, de uma senhora que viajava num daqueles navios brasileiros, torpedeados pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Sobreviventes revelaram que a madame já estava salva naquele horror indescritível do naufrágio noturno em alto mar. Lembrou-se, todavia, das jóias que deixara no camarote. Apesar das advertências, voltou para apanhá-las. Mas a embarcação inclinou-se de tal modo que a imprudente Eva não mais conseguiu sair da cabine, morrendo lá dentro. Certamente agarrada ao seu tesouro, como os macaquinhos indonésios.
Somos uns completos idiotas - surdos, cegos e nus, como diz o Apocalipse. O convite para entesourarmos no Céu, praticando boas obras, repartindo talentos e fortunas, é aceito e vivido por minorias, “o pequeno rebanho” a que se referiu Jesus. O grosso da humanidade sacrifica saúde, honra e a própria vida para amontoar ouro, para ter sempre mais dinheiro. O diabo se encarrega de cegá-los para a terrível realidade: morrerão, e tudo, tudo ficará para os sorridentes herdeiros! Por isso, disse o gaiato que os testamentos não deveriam começar com a expressão “deixo para Fulano”, mas “sou obrigado a deixar...”
Liberta-nos, Senhor, dessa escravidão ao dinheiro, a raiz de todos os males, como ensina São Paulo! Faze-nos buscar o teu Reino e a tua justiça para merecermos os acréscimos! Amém.

(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos - Meditações” – 1975)