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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O pior dos ateus



O PIOR DOS ATEUS
“Por que me dizeis ‘Senhor! Senhor!’ e não fazeis o que vos mando?” - Lucas 6,46
É uma afirmativa que sempre escandaliza certos católicos rotulados de “praticantes”: pode-se ir à igreja diariamente, conhecer de cor a Bíblia inteira e, na vida... ser ateu! Sim. Ateu prático - aquele que muito fala em Deus, mas O exclui cuidadosamente de sua rotina cotidiana.
O ateu teórico promove publicamente sua descrença, fazendo alarde de um circunstancial e pedante ceticismo, que dura enquanto persistem as calmas da existência, as situações normais, sem sobressaltos e medrosas incertezas. Mas na hora do desastre, no pavoroso momento da catástrofe, seu pretensioso esquema racionalista se desmonta num passe de mágica... E ele, feito para Deus como qualquer homem, reza, suplica e pede ajuda ao Senhor que negara. “Se o Pai do céu me der vida e saúde, ainda hei de provar que Ele não existe!” - sentenciou o humorista Millôr Fernandes, definindo genialmente o ridículo ateísmo de identificadas elites.
O ateu prático - o pior de todos! - tem-se, ao contrário do outro, como o dono da Fé, o modelo do crente. Quanta piedade... domingueira e de sacristia! Nos negócios e diversões, nas leituras e na criação dos filhos, age, porém, exatamente como se Deus não existisse! É adúltero, hipócrita, desonesto e mau, re­petindo as mesmas iniquidades dos réprobos sem nenhum código moral a lhes reger o comportamento!
É à gente fingida assim que Se dirige Cristo na contundente indagação citada no início desta página. Se vivo a bater no peito, proclamando minha convicção religiosa, tenho de fazer o que determina o meu suposto Divino Mestre, sendo luz na comunidade, dando diários testemunhos de coerência com o Evangelho e de fi­delidade à Igreja a que juro pertencer.
Só desta forma - vivendo a doutrina - não se correrá o risco supremo e irremediável de ouvir, quando já não houver tempo pa­ra mais nada: - “Ide, malditos, para o fogo eterno, pois nunca vos conheci!”
Ensina-nos, ó Jesus Salvador, a fazer de nossas vidas um cristalino espelho de Ti!
(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos – Meditações” – 1975)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Fantasmas pastando...



FANTASMAS PASTANDO...

“Tal é o destino dos que em si confiam: um rebanho recolhido ao cemitério, que a Morte leva a pastar...” - Salmo 48,15

Quando visito cemitérios, passo longos momentos pensando na multidão que, até ao toque da trombeta final, se esconde sob os meus pés. E não consigo fugir da implacável certeza: logo mais - hoje mesmo, amanhã ou daqui a uma década - também eu terei naufragado nesse mar de sete palmos...­
Ao deparar com o versículo que abre esta página, reagi como se ele funcionasse à semelhança de uma espoleta, deflagrando em meu cérebro súbitas associações de idéias. Esquisito, não é? Os defuntos são vistos como um rebanho que a Morte leva a pastar nas alamedas do cemitério...­
A veia do poeta surge na porta: vejo intermináveis manadas de vultos fantasmais percorrendo o Campo Santo no silêncio sinistro de noites enluaradas... Imagino os magnatas de outrora, os deuses de ontem, os mendigos e os reis - todos, lado a lado, absolutamente iguais e esqueléticos, atendendo aos acenos orientadores da Megera que os conduz. E calculo a extensão do arrependimento dos que dissiparam a vida... Penso nas dimensões eternais da alegria daqueles que consumiram os seus anos fazendo o bem...­­
A Morte... Nenhuma outra meditação pode ser tão proveitosa como o hábito de se refletir, todos os dias, sobre o fim de tudo... sobre o começo de tudo... Mas, tragicamente, a maioria dos homens recusa-se a isso - por medo, por “arejamento mental” ou pela ilusão de que a ciência dará um jeito de não se morrer mais...
Medalhas... Diplomas... Fortunas... Glórias... Amores... Pompas... Mesquinharias... Grandezas... Concupiscências... Invejas... Ruindades... Tudo, tudo recolhido ao cemitério, como se atira sucata num depósito!... O que parecia eterno, durou um fugaz momento: vinte anos... meio século... E agora? E agora, José!...
Juízo, meu irmão! Não nos esqueçamos em momento algum: somos pó e ao pó retornaremos a qualquer instante! Procuremos viver de tal modo que desse pó imundo possa voar ao céu uma alma santa, que não teme o Tribunal de Deus! Impossível? Humanamente, sim. Mas a graça divina é “infinitamente capaz de nos dar muito além do que pedimos e imaginamos”, como lembra o Apóstolo. Dizendo de outra maneira: Cristo fecunda a nossa esterilidade se abrirmos o coração a Ele! E tudo fica tão fácil!­­

(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos - Meditações” – 1975) 

domingo, 30 de dezembro de 2012

O macaco e o coco



O MACACO E O COCO

“As coisas que juntaste, para quem serão? Assim acontece com o homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.” - Lucas 12,20-21

Conta-se que em algumas ilhas da Indonésia existe uma espécie ele macaquinhos particularmente dóceis e brincalhões. Os nativos descobriram uma engenhosa forma de capturá-los com facilidade, sem maltratar os simpáticos bichinhos.­
Apanham um coco, descascam-no e fazem nele um buraco suficiente para passar a mão vazia do símio. Lá dentro colocam uma pedra pequena e deixam a isca no local onde mora a macacada. Não demora muito, lá vem o curioso animal: apanha o coco, olha através do orifício e vê o objeto que puseram ali. Sem perder tempo segura a pedrinha com firmeza. Logo aparecem os caçadores para o simples trabalho de agarrar o pequeno palerma. Ele fechou a mãozinha com a pedra, não consegue mais retirá-la porque já não passa pelo buraco, mas... não larga o seu tesouro!
Quando eu soube da história acima, pensei nas pessoas tão apegadas aos bens mundanos. Sei, por exemplo, de uma senhora que viajava num daqueles navios brasileiros, torpedeados pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Sobreviventes revelaram que a madame já estava salva naquele horror indescritível do naufrágio noturno em alto mar. Lembrou-se, todavia, das jóias que deixara no camarote. Apesar das advertências, voltou para apanhá-las. Mas a embarcação inclinou-se de tal modo que a imprudente Eva não mais conseguiu sair da cabine, morrendo lá dentro. Certamente agarrada ao seu tesouro, como os macaquinhos indonésios.
Somos uns completos idiotas - surdos, cegos e nus, como diz o Apocalipse. O convite para entesourarmos no Céu, praticando boas obras, repartindo talentos e fortunas, é aceito e vivido por minorias, “o pequeno rebanho” a que se referiu Jesus. O grosso da humanidade sacrifica saúde, honra e a própria vida para amontoar ouro, para ter sempre mais dinheiro. O diabo se encarrega de cegá-los para a terrível realidade: morrerão, e tudo, tudo ficará para os sorridentes herdeiros! Por isso, disse o gaiato que os testamentos não deveriam começar com a expressão “deixo para Fulano”, mas “sou obrigado a deixar...”
Liberta-nos, Senhor, dessa escravidão ao dinheiro, a raiz de todos os males, como ensina São Paulo! Faze-nos buscar o teu Reino e a tua justiça para merecermos os acréscimos! Amém.

(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos - Meditações” – 1975)

sábado, 29 de dezembro de 2012

A lição do araçazeiro deitado



A LIÇÃO DO ARAÇAZEIRO DEITADO

“Eu sou a Videira, vós sois os ramos. Aquele que permanece em Mim e Eu nele, produz muito fruto, porque, sem Mim, nada podeis fazer.” - João 15,5

Hoje eu tive ocasião de meditar sobre esta passagem evangélica, e o fiz dentro de minha canoa, durante uma pescaria. Foi assim.
Eu passava por uma área do litoral da cidade quando tive a atenção despertada por um frondoso araçazeiro que, aliás, me era algo familiar, pois já o vira outras vezes. Nunca, entretanto, o havia observado bem de perto.
Fiquei surpreso ante a excepcional quantidade dos frutinhos que desabrochavam em todos os galhos. Percebi, então, o prodígio: aquela árvore tão viçosa estava deitada, caída, no chão!... Fiz um emocionado exame em seu caule e verifiquei o seguinte: o vegetal desabara, um dia, mas uns fragmentos de suas raízes ficaram presos ao solo. Desses restinhos de vida, a planta se nutrira, novas raízes foram surgindo e eu desfrutava, no banco da montaria, de um espetáculo fantástico.­
Logo fiz a fácil e evidente analogia: as palavras de Jesus me vieram à mente - Videira e ramos. E enquanto a canoa descia, de bubuia, no meu Tapajós azul, eu pensava na vida...
Aquele pé de araçá tinha sobrevivido galhardamente porque não se interrompera sua união com a mãe-terra. Era unicamente por isso que, mesmo prostrado, em posição horizontal muito desconfortável, emitia galhos para o alto e frutificava abundantemente, dando um “show” de exuberância e fartura. Houvesse, porém, ocorrido o rompimento com o solo, em pouco tempo a bela planta estaria seca, irremediavelmente morta.­
Pensei nos doentes, nos sofredores, em nossas cruzes diárias... Senti, mais uma vez, a eterna atualidade do Evangelho de Jesus. Unidos a ele, sempre, sempre estaremos produzindo frutos. Mesmo num leito de dores, ainda que tudo pareça negro e perdido, se persistir a vinculação do galho com a Videira, o testemunho será impressionante. Os homens ficarão deslumbrados ante a grandeza do mártir, ante a valentia espiritual de um corpo em ruínas. Os crentes sentirão sua fé revigorada. Os ímpios se abalarão, começando a crer.­­
Que magnífico e extraordinário araçazeiro!... Aquela árvore deveria virar estátua pelo sublime estímulo que fornece a quantos “têm olhos para ver e ouvidos para ouvir”.­

(Emir Bemerguy – “Sementes para Passarinhos - Meditações” – 1975)