Espaço para mostrar um pouco do legado de meu pai, Emir Hermes Bemerguy, nascido em 04/03/1933 e falecido a 13/11/2012. Ele deixou uma quantidade muito grande de material escrito, entre poemas, crônicas, um romance, etc., e irei colocando aqui um pouco desta obra. Como as flores, ele deixou uma "saudade perfumada", que é o título de um dos seus poemas.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
A um ateu
A UM ATEU
“Para quem crê, as provas da existência de Deus são desnecessárias. Para quem não crê, são inúteis”
Quem crê num Deus Eterno e Onipotente,
Não precisa de provas e argumentos,
Pois O descobre a todos os momentos
Dentro de si, nas coisas, na sofrida gente,
E até no rosto das pessoas fúteis.
A quem não crê, porém, no Criador,
De sua existência as provas são inúteis.
Não perderei meu tempo, então, amigo,
A discutir religião contigo.
Não, não! Tuas razões confusas não receio,
Pois quanto mais blasfemas, tanto mais eu creio!
Dirijo a ti, este pedido:
Se tu não crês, respeites minha Fé!
Não vomites o fel que tens contido
No coração, nos gestos e no olhar até.
Não escarres teu ódio
Sobre a esperança que sustém minh´alma!
Se eu te falei de Deus, foi pura e simplesmente
Porque esqueci de Cristo a frase contundente:
“Não dês aos cães as coisas sacrossantas,
Nem aos porcos atires pérolas divinas,
Pois eles poderão voltar-se enfurecidos,
E espedaçar-te, filho, em meio aos seus grunhidos!”
Então, amigo, deixa-me em paz com Jesus!
Se preferes ficar a espojar-te na lama,
Não impeças que eu viva banhado de Luz!
(Emir Bemerguy - 17/06/1971)
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Papai e o maestro Isoca
Este vídeo é parte de uma reportagem da RBA TV Santarém sobre o centenário do maestro Isoca. Nele, em uma conversa, papai e o maestro revelam o processo de criação que utilizaram para fazer muitas canções. Eles gastavam apenas uma hora para compor uma canção. Assim surgiram muitas das belas composições feitas pela dupla.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Carnaval de 1963
Peço desculpas por passar uns dias sem postar nada no blog. É que andei meio atarefado e não sobrou tempo. Esta foto mostra o carnaval de 1963. Eu, com três anos, estou naq frente, com um saco de confete. Nos braços da mamãe, o Toninho, meu irmão. Aparecem ainda os adultos dona Laura Loureiro, tia Edith, irmã de papai, tia Nícia, esposa de tio Eros, vovó Didó e vovô Vidal, mãe e pai de papai. Há uma outra senhora por trás que não consegui identificar. As outras crianças são os filhos de dona Laura, além de meus primos Paulo Sérgio e Maísa.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Escrivaninha
Nesta escrivaninha papai escreveu muitos de seus textos. Ela pertenceu a Paulo Rodrigues dos Santos e foi doada a ele pela viúva do escritor.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Os "assustados" de outrora
OS “ASSUSTADOS” DE OUTRORA
Apesar da humana e
incorrigível tendência de vivermos bendizendo tempos passados, vítimas de uma
estranha amnésia que nos faz esquecer tantas surras dolorosas que levamos “em
nossa época”, nem tudo, nem tudo - sejamos honestos com a moçada... foi assim tão “risonho e franco” nas décadas
precedentes... É claro que a memória, num generoso
processo
seletivo, filtra impurezas vivenciais, depura as evocações de todo o cascalho
imprestável, tentando, gentilmente, oferecer-nos apenas as pérolas
rebrilhantes daquilo que passou. Mas, numa sincera e desapaixonada análise
retrospectiva, convenhamos que certos hábitos de nossas gostosas e modorrentas cidades,
há trinta ou quarenta anos, constituíam algo de se dar constantes graças a Deus
por terem acabado. Se, de um modo geral, a existência corria com muito menos atropelos
do que nestes neurotizantes dias de hoje, havia umas coisinhas que... Nossa
Senhora! Os tais “assustados” carnavalescos, por exemplo...
A juventude atual não faz a mínima idéia daquelas “brincadeiras”
que, não poucas vezes, degeneravam em sopapos e desaforos envolvendo dezenas de pessoas. Vejamos como funcionava o apreciado divertimento.
Como geralmente só
existia um clube social em cada comunidade, não era possível a utilização
diária da única sede para as quentes folias momescas; tinha-se, então, que
dançar em residências, preferindo-se naturalmente os prédios mais amplos, com
grandes salas para as “cobrinhas”. O problema principal consistia no seguinte:
quase todas as famílias, se fossem previamente consultadas, recusariam a
licença para a festança em seus
domínios, sabendo das dores de cabeça que isso sempre trazia. Diante da
difícil situação, o diabo inspirou aos foliões a engenhosa fórmula dos “assustados”: sem qualquer aviso, invadia-se, de repente, o lar escolhido
secretamente para a noitada, colocando-se os perplexos moradores ante um fato
consumado. O “susto” realmente não era pequeno...
Não custa avaliar os
transtornos decorrentes de tais molecagens coletivas. Terminado o jantar, a
família preparava-se para a diária conversa à porta da rua, em que a vida alheia era
criteriosamente vasculhada... Súbito, como um furacão, o bloco irrompia, casa
adentro, com a charanga puxando
valentemente o cortejo, ao som do trombeteante “Zé Pereira”!
Era um “Deus-nos-acuda”, com os moradores
correndo, atordoados, arrastando móveis, pedindo, aos berros inúteis, que se
tivesse cuidado com a cristaleira, enquanto o pagode pegava embalagem entre
formidáveis gargalhadas gozativas dos felizes invasores!
Entretanto, nem todos
os cidadãos acatavam pacificamente o abuso, e alguns reagiam como homens, até
com violência, para conter a maré montante que transformaria o refúgio
doméstico num pandemônio de muitas horas. Apesar de eu poder referir outras
experiências, pois também minha família, em
Belterra,
foi vítima da cafajestada, prefiro fazer especial alusão a uma encrenca momesca
ocorrida aqui em Santarém, que
se tornou famosa, dado o gabarito dos personagens nela envolvidos.
Uns moços da elite mocoronga dos
anos trinta programaram o “assustado” daquela noite, elegendo, para o ataque, a
ampla residência do doutor Augusto Montenegro, advogado local e homônimo do
célebre político que foi governador do Estado do Pará. Apesar de isoladas
advertências de alguns rapazes mais ponderados, sobre o gênio explosivo do figurão,
nada impediu que o
plano
fosse posto em prática. Contratado o conjunto musical, entre cujos componentes
se incluíam Wilson Dias da Fonseca e Joaquim Toscano, tudo ficou pronto para a
alegre batalha carnavalesca. “Viva o Zé Pereira!” e... vamos lá!
Embora se temesse,
ninguém acreditava realmente que o causídico levasse às últimas consequências
seu protesto contra a pândega. Contudo, quando o esgoelante batalhão transpôs a
soleira do prédio visado, a velha genitora do proprietário caiu no chão, dura,
com uma aparente síncope cardíaca. Louco de raiva, doutor Montenegro apanhou um
imenso revólver, gritando:
- Vai morrer todo
mundo!... Vocês mataram minha mãe, cachorros!... Não sobra nenhum!...
Mas, antes de atirar,
o angustiado filho procurou acudir a ofegante senhora - providenciais segundos
de que se prevaleceram os heróicos foliões para escapar, em furiosas correrias...
Contam testemunhas que saía gente pelas janelas, havendo linguarudos capazes de
garantir que até buraco de fechadura deu passagem a espavoridos súditos de Momo...
Felizmente, a idosa
dama não morreu. Mas, depois do cômico, e quase trágico, sururu, os adeptos
dos “assustados” passaram a agir com um pouco menos de imprudência,
compreendendo que, em certas ocasiões, eles acabavam se “assustando” mais que os próprios
moradores das
casas que escolhiam para as inocentes fuzarcas de fevereiro...
E, por causa de enguiços assim,
às aloucadas e indesejáveis invasões carnavalescas foram rareando, novos
clubes surgiram na cidade, até que se
extinguiram
de
vez (deixando
sempre alguma saudade...), os improvisados arrasta-pés, repondo a paz nas almas dos inquietos senhores
de mansões com amplos espaços...
Também por isso, Deus seja louvado!
(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Coincidência que intriga
COINCIDÊNCIA QUE INTRIGA
De vez em quando a
vida nos coloca diante do nariz uma bandeja de formato grotesco, incomum e,
quando olhamos o seu conteúdo, sentimos a cabeça girar, tonta, perdida em
inúteis conjeturas para racionalizar os desafios. E esses quitutes podem ser
produtos de complicadíssimas receitas ou apenas uns bolinhos vagabundos,
fritos em banha de porco, mas, ainda assim, potencialmente capazes de injetar
espantos nas almas. Eis um deles - dos mais simples.
No início deste
século, viveu em Santarém, onde nascera, a senhora Zulmira de Souza Braga,
casada com o coronel Antônio de Vasconcelos Braga, um dos desbravadores do rio
Tapajós. Residiam no solar por ele construído e que, posteriormente, pertenceu
ao lusitano Manoel Gomes de Farias, hoje, patrimônio de herdeiros radicados no
sul do país.
Em 1917 a família transferiu-se para o Estado do Rio de Janeiro, fixando residência em
Niterói. Isoca, o nosso fecundo compositor, teve oportunidade de visitar os
conterrâneos (não os conheci) na capital fluminense, contando-me coisas
interessantes.
A ilustre dama, viúva
havia bastante tempo, morava com as filhas e jamais esquecera sua terra.
Lembrava-se de tudo, comprazia-se em evocar velhas vivências “daquele tempo”,
mas particularmente insistia sobre um detalhe que sempre estava presente em
suas longas conversas: o cata-vento, que fora erguido ao lado de seu palacete,
e que girava lentamente, liricamente, as suas pás, ao impulso das mansas
virações mocorongas, com gemidos inconfundíveis, que ela garantia ainda escutar com toda a nitidez, tantos anos depois... Nas
noites de luar - relembrava a matrona – reunida a família no pequeno coreto que
até hoje existe ali na esquina esquerda do edifício, ouvia, encantada, as
canções de José Agostinho, Joaquim Toscano e outros seresteiros da época. Ela
tinha enorme saudade de tudo, mas principalmente daquele querido cata-vento que
rodava, rodava, embalado pelas refrescantes aragens tapajônicas...
Bem. A 22 de setembro
de 1967 faleceu, em Niterói, a veneranda viúva do coronel Antônio Braga. E aqui
vai o fato extraordinário, ou, caso prefiram um adjetivo menos espalhafatoso,
o fato incomum: pouco mais de vinte e quatro horas após o desenlace da idosa
conterrânea, desabou sobre Santarém uma das
piores
borrascas de que havia registros escritos ou mentais em toda a. área do Tapajós e Baixo
Amazonas... Terrível,
aquela madrugada de vinte e quatro de setembro: o furacãozinho derrubou árvores, barracas, conduziu
para longe boa parte dos telhados de muitas casas, enfim, operou os maiores
escangalhos públicos e particulares.
Pasmem, agora, os
cavalheiros, pois as senhoras desmaiam antes: entre as coisas que ruíram sob o fragor
do vendaval, incluiu-se o sólido cata-vento de dona Zulmira Braga! Caiu com estrépito, danificando o que estava nas cercanias - ele, que fora construído especificamente para ser
acionado pela força dos ventos... Acabou-se junto com sua primitiva proprietária, que nunca o esquecera
e tanto contava a seu respeito!
“Pura coincidência!”, proclamará, superiormente, a maioria... Posso concordar, em princípio...
Mas, que intriga, intriga...
(Emir Bemerguy –
“Santarenices” – 1975)
Assinar:
Postagens (Atom)

