quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A um ateu


A UM ATEU 

“Para quem crê, as provas da existência de Deus são desnecessárias. Para quem não crê, são inúteis”

Quem crê num Deus Eterno e Onipotente,
Não precisa de provas e argumentos,
Pois O descobre a todos os momentos
Dentro de si, nas coisas, na sofrida gente,
E até no rosto das pessoas fúteis.
A quem não crê, porém, no Criador,
De sua existência as provas são inúteis.
Não perderei meu tempo, então, amigo,
A discutir religião contigo.
Não, não! Tuas razões confusas não receio,
Pois quanto mais blasfemas, tanto mais eu creio!
Dirijo a ti, este pedido:
Se tu não crês, respeites minha Fé!
Não vomites o fel que tens contido
No coração, nos gestos e no olhar até.
Não escarres teu ódio
Sobre a esperança que sustém minh´alma!
Se eu te falei de Deus, foi pura e simplesmente
Porque esqueci de Cristo a frase contundente:
“Não dês aos cães as coisas sacrossantas,
Nem aos porcos atires pérolas divinas,
Pois eles poderão voltar-se enfurecidos,
E espedaçar-te, filho, em meio aos seus grunhidos!”
Então, amigo, deixa-me em paz com Jesus!
Se preferes ficar a espojar-te na lama,
Não impeças que eu viva banhado de Luz! 

(Emir Bemerguy - 17/06/1971)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Papai e o maestro Isoca

Este vídeo é parte de uma reportagem da RBA TV Santarém sobre o centenário do maestro Isoca. Nele, em uma conversa, papai e o maestro revelam o processo de criação que utilizaram para fazer muitas canções. Eles gastavam apenas uma hora para compor uma canção. Assim surgiram muitas das belas composições feitas pela dupla.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Carnaval de 1963

Peço desculpas por passar uns dias sem postar nada no blog. É que andei meio atarefado e não sobrou tempo. Esta foto mostra o carnaval de 1963. Eu, com três anos, estou naq frente, com um saco de confete. Nos braços da mamãe, o Toninho, meu irmão. Aparecem ainda os adultos dona Laura Loureiro, tia Edith, irmã de papai, tia Nícia, esposa de tio Eros, vovó Didó e vovô Vidal, mãe e pai de papai. Há uma outra senhora por trás que não consegui identificar. As outras crianças são os filhos de dona Laura, além de meus primos Paulo Sérgio e Maísa.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Escrivaninha

Nesta escrivaninha papai escreveu muitos de seus textos. Ela pertenceu a Paulo Rodrigues dos Santos e foi doada a ele pela viúva do escritor. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os "assustados" de outrora



OS ASSUSTADOS DE OUTRORA

Apesar da humana e incorrigível tendência de vivermos bendizendo tempos passados, vítimas de uma estranha amnésia que nos faz esquecer tantas surras dolorosas que levamos “em nossa época”, nem tudo, nem tudo - sejamos honestos com a moçada... foi assim tão “risonho e franco” nas décadas precedentes... É claro que a memória, num genero­so processo seletivo, filtra impurezas vivenciais, depura as evocações de todo o cascalho imprestável, tentando, gentilmente, oferecer­-nos apenas as pérolas rebrilhantes daquilo que passou. Mas, numa sin­cera e desapaixonada análise retrospectiva, convenhamos que certos hábitos de nossas gostosas e modorrentas cidades, há trinta ou quarenta anos, constituíam algo de se dar constantes graças a Deus por terem acabado. Se, de um modo geral, a existência corria com muito menos a­tropelos do que nestes neurotizantes dias de hoje, havia umas coisi­nhas que... Nossa Senhora! Os tais “assustados” carnavalescos, por exemplo...
A juventude atual não faz a mínima idéia daquelas “brincadeiras” que, não poucas vezes, degeneravam em sopapos e desaforos envolvendo dezenas de pessoas. Vejamos como funcionava o apreciado divertimento.
Como geralmente só existia um clube social em cada comunidade, não era possível a utilização diária da única sede para as quentes folias momescas; tinha-se, então, que dançar em residências, preferin­do-se naturalmente os prédios mais amplos, com grandes salas para as “cobrinhas”. O problema principal consistia no seguinte: quase todas as famílias, se fossem previamente consultadas, recusariam a licença para a festança em seus domínios, sabendo das dores de cabeça que is­so sempre trazia. Diante da difícil situação, o diabo inspirou aos foliões a engenhosa fórmula dos “assustados”: sem qualquer aviso, invadia-se, de repente, o lar escolhido secretamente para a noitada, colocando-se os perplexos moradores ante um fato consumado. O “susto” realmente não era pequeno...
Não custa avaliar os transtornos decorrentes de tais molecagens coletivas. Terminado o jantar, a família preparava-se para a diária conversa à porta da rua, em que a vida alheia era criteriosamente vasculhada... Súbito, como um furacão, o bloco irrompia, casa adentro, com a charanga puxando valentemente o cortejo, ao som do trombe­teante “Zé Pereira”!
Era um “Deus-nos-acuda”, com os moradores correndo, atordoados, arrastando móveis, pedindo, aos berros inúteis, que se tivesse cuida­do com a cristaleira, enquanto o pagode pegava embalagem entre formidáveis gargalhadas gozativas dos felizes invasores!
Entretanto, nem todos os cidadãos acatavam pacificamente o abuso, e alguns reagiam como homens, até com violência, para conter a maré montante que transformaria o refúgio doméstico num pandemônio de muitas horas. Apesar de eu poder referir outras experiências, pois também minha família, em Belterra, foi vítima da cafajestada, prefiro fazer especial alusão a uma encrenca momesca ocorrida qui em Santarém, que se tornou famosa, dado o gabarito dos personagens nela envolvidos.
Uns moços da elite mocoronga dos anos trinta programaram o “assustado” daquela noite, elegendo, para o ataque, a ampla residên­cia do doutor Augusto Montenegro, advogado local e homônimo do céle­bre político que foi governador do Estado do Pará. Apesar de isoladas advertências de alguns rapazes mais ponderados, sobre o gênio explo­sivo do figurão, nada impediu que o plano fosse posto em prática. Contratado o conjunto musical, entre cujos componentes se incluíam Wil­son Dias da Fonseca e Joaquim Toscano, tudo ficou pronto para a ale­gre batalha carnavalesca. “Viva o Zé Pereira!” e... vamos lá!
Embora se temesse, ninguém acreditava realmente que o causídico levasse às últimas consequências seu protesto contra a pândega. Contudo, quando o esgoelante batalhão transpôs a soleira do prédio visado, a velha genitora do proprietário caiu no chão, dura, com uma aparente síncope cardíaca. Louco de raiva, doutor Montenegro apanhou um imenso revólver, gritando:
- Vai morrer todo mundo!... Vocês mataram minha mãe, cachorros!... Não sobra nenhum!...
Mas, antes de atirar, o angustiado filho procurou acudir a ofegan­te senhora - providenciais segundos de que se prevaleceram os heróicos foliões para escapar, em furiosas correrias... Contam testemunhas que saía gente pelas janelas, havendo linguarudos capazes de garantir que até buraco de fechadura deu passagem a espavoridos súditos de Momo...
Felizmente, a idosa dama não morreu. Mas, depois do cômico, e qua­se trágico, sururu, os adeptos dos “assustados” passaram a agir com um pouco menos de imprudência, compreendendo que, em certas ocasiões, eles acabavam se “assustando” mais que os próprios moradores das casas que escolhiam para as inocentes fuzarcas de fevereiro...
E, por causa de enguiços assim, às aloucadas e indesejáveis in­vasões carnavalescas foram rareando, novos clubes surgiram na cidade, até que se extinguiram de vez (deixando sempre alguma saudade...), os improvisados arrasta-pés, repondo a paz nas almas dos inquietos senhores de mansões com amplos espaços...
Também por isso, Deus seja louvado!
 
(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Coincidência que intriga



COINCIDÊNCIA QUE INTRIGA

De vez em quando a vida nos coloca diante do nariz uma bandeja de formato grotesco, incomum e, quando olhamos o seu conteúdo, sentimos a cabeça girar, tonta, perdida em inúteis conjeturas para racio­nalizar os desafios. E esses quitutes podem ser produtos de complica­díssimas receitas ou apenas uns bolinhos vagabundos, fritos em banha de porco, mas, ainda assim, potencialmente capazes de injetar espan­tos nas almas. Eis um deles - dos mais simples.
No início deste século, viveu em Santarém, onde nascera, a senhora Zulmira de Souza Braga, casada com o coronel Antônio de Vas­concelos Braga, um dos desbravadores do rio Tapajós. Residiam no so­lar por ele construído e que, posteriormente, pertenceu ao lusitano Manoel Gomes de Farias, hoje, patrimônio de herdeiros radicados no sul do país.
Em 1917 a família transferiu-se para o Estado do Rio de Janeiro, fixando residência em Niterói. Isoca, o nosso fecundo compositor, teve oportunidade de visitar os conterrâneos (não os conheci) na ca­pital fluminense, contando-me coisas interessantes.
A ilustre dama, viúva havia bastante tempo, morava com as filhas e jamais esquecera sua terra. Lembrava-se de tudo, comprazia-­se em evocar velhas vivências “daquele tempo”, mas particularmente insistia sobre um detalhe que sempre estava presente em suas longas conversas: o cata-vento, que fora erguido ao lado de seu palacete, e que girava lentamente, liricamente, as suas pás, ao impulso das man­sas virações mocorongas, com gemidos inconfundíveis, que ela garantia ainda escutar com toda a nitidez, tantos anos depois... Nas noites de luar - relembrava a matrona – reunida a família no pequeno coreto que até hoje existe ali na esquina esquerda do edifício, ouvia, encantada, as canções de José Agostinho, Joaquim Toscano e outros seresteiros da época. Ela tinha enorme saudade de tudo, mas principalmente daquele querido cata-vento que rodava, rodava, embalado pelas refrescan­tes aragens tapajônicas...
Bem. A 22 de setembro de 1967 faleceu, em Niterói, a veneranda viúva do coronel Antônio Braga. E aqui vai o fato extraor­dinário, ou, caso prefiram um adjetivo menos espalhafatoso, o fato incomum: pouco mais de vinte e quatro horas após o desenlace da idosa conterrânea, desabou sobre Santarém uma das piores borras­cas de que havia registros escritos ou mentais em toda a. área do Tapajós e Baixo Amazonas... Terrível, aquela madrugada de vinte e quatro de setembro: o furacãozinho derrubou árvores, barracas, conduziu para longe boa parte dos telhados de muitas casas, enfim, operou os maiores escangalhos públicos e particulares.
Pasmem, agora, os cavalheiros, pois as senhoras desmaiam antes: entre as coisas que ruíram sob o fragor do vendaval, incluiu-se o sólido cata-vento de dona Zulmira Braga! Caiu com es­trépito, danificando o que estava nas cercanias - ele, que fora construído especificamente para ser acionado pela força dos ven­tos... Acabou-se junto com sua primitiva proprietária, que nunca o esquecera e tanto contava a seu respeito!
“Pura coincidência!”, proclamará, superiormente, a maioria... Posso concordar, em princípio... Mas, que intriga, intriga...

(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)