segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

As cretinices de Papai Noel

AS CRETINICES DE PAPAI NOEL
 
Outro Natal em minha vida...
A mesma angústia indefinida...
O mesmo anseio de chorar...
O Mundo adora o Deus-Criança,
Mas a alegria não alcança
Todos os homens, todo lar.

 
Ricos senhores sobraçando
Vastos embrulhos, vão negando
A esmolinha de um real
Às criaturas pequeninas
Que esfregam rostos nas vitrinas,
Querendo tudo e... sem dinheiro!
 
Tento sorrir e não acerto...
Olhinhos tristes vejo perto...
Crianças sujas... É cruel!
Não, não se pode estar contente
Sentindo a dor de tanta gente!...
Como és ruim, Papail Noel!...
(Emir Bemerguy)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Acróstico

Este foi o segundo poema que papai fez para mamãe, em 1954.


ACRÓSTICO

Busquei no peito o verso mais bonito
E a mais bonita rima pra te dar.
Risquei folhas inúmeras e, aflito,
Estrofe alguma consegui formar.
No anseio, todavia, de esta paixão
Imensa e torturante extravasar,
Com esforço, formulo a confissão:
Eu nasci, podes crer, para te amar!...

(Emir Bemerguy - 21/08/1954)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Espírito hidrófobo


ESPÍRITO HIDRÓFOBO

Esta eu ouvi de uma das mais insuspeitas pessoas com que cruzei os caminhos da vida - o maestro e meu querido compadre Wilson Fonseca, o genial Isoca. Vendo, portanto, o peixe pelo preço da aquisição, sem mexer sequer numa escama do bichinho.
Havia um cidadão, agrimensor e rábula santareno, dotado da­quela curiosidade universal que impele os homens tanto às conquistas como às enrascadas comuns aos afoitos aprendizes de feiticeiros. Inteligente e estudioso, até uma rudimentar asa voadora ele fabricou; mas não apareceu ninguém suficientemente doido para testar o invento... Isso, na década de quarenta...
Nem só de engenhocas, entretanto, vivia o doutor. De repente, deu-lhe na veneta pesquisar o espiritismo: queria porque queria descobrir o caminho das “incorporações” em corpos humanos. Comprou livros, leu, releu, vasculhou, até que se sentiu em plenas condições de pôr em prática os novos conhecimentos. E passou a tomar providências concretas no sentido de experimentar as esquisi­tas teorias... Um obstáculo imprevisto: ao saber das intenções do cônjuge, sua esposa, deu-lhe uma bronca violenta, não admitindo infernais sessões espíritas em seu santo lar. Ele então recorreu aos amigos.
Conversa aqui, explica ali, conseguiu convencer um comerciante libanês a ceder sua casa para o teste inaugural. Tudo combinado, na hora prevista chegou o homem. Garantindo que não possuía poderes mediúnicos, disse ao dono da casa que precisavam de um bom “médium”. embolou o meio do campo, desde que, na residência e nas redondezas ninguém desejava brincar de visagem. Encabulado, ele resolveu convidar o primeiro sujeito que passasse na rua... Sem demora, surgiu um tipo popular, que a cidade conhecia como “Fon-fon”, porque era muito fanhoso. Não foi preci­so conversar demais para fazê-lo topar a parada.
Começou a sessão. O dirigente fez as mágicas aprendidas e, em certo instante, um espírito “baixou” no parrudo “Fon-fon”. O dia­bo é que se tratava, ao que parece, de uma alma galhofeira. bri­guenta, ou muito esfomeada: o “médium” endoidou depressa e se pôs a morder a mesa de cedro macio com violentas dentadas, feito cachorro hidrófobo! Numa das abocanhadas, sua dentadura ficou pre­sa na madeira, tal a potência das mandíbulas... E tentava morder todo mundo, estabelecendo um pandemônio no local!
O libanês, espavorido, berrava:
- Doutor, tira, badrissa, espírito do “Fon-fon”!
Pálido, assustado, escondendo-se como podia, explicava o mestre:
- Eu só aprendi a fazer baixar. Não sei como é que se tira.
Forte como um javali, o comerciante partiu para a ação: deu uma segura “gravata” no “médium” e saiu a empurrá-lo para trás de uma porta. Ali, aos gritos de “vai embora, borgaria”, espremeu raivosamente o incorporado, socando-o muitas vezes contra a parede. Após muito trabalho, “Fon-fon” voltou ao normal, com aquela cara de pateta de quem não sabe ao certo o que aconteceu... Mas logo apanhou sua preciosa e resistente dentadura, escafedendo-se a jurar que nunca mais se meteria numa daquelas...
Ao que se sabe, as habilidades do doutor nas searas espíritas nasceram e foram assassinadas naquela agoniada noite. Ele, coitado, só aprendera a invocar assombrações morde­doras e - o pior de tudo - não sabia como remetê-las de volta aos cafundós do inferno. A sorte de todos é que o troncudo libanês conseguira expulsar o nojento espírito-de-cachorro no berro e no muque. Vade retro! 
(Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mais de meio século de namoro!


MEIO SÉCULO E UNS QUEBRADOS... DE NAMORO!

15 de novembro de 1975, sábado - Acompanhei, hoje, o enterro de meu amigo Luciano Santos, tocador competente de clarinete e operador do velho “Cine Olímpia” durante décadas e protagonista de uma das mais curio­sas histórias de amor de todos os tempos. Durante nada menos de CINQUENTA E DOIS ANOS namorou Guiomarina, a quem vi, debulhando-se em lágrimas, junto ao esquife.
Sofrendo forte oposição por parte da mãe da moça, o idílio foi indo, foi indo... Quando a senhora morreu, três déca­das de mãos dadas, sonhos e olhares ternos haviam transcorrido... Alguém perguntou:
- Como é, Luciano, agora sai mesmo o casório?
- Ainda é cedo - respondeu o brincalhão galã. - Vou começar a estudar melhor o gênio da noiva...
Outros vinte e dois anos voaram... O namoro prosseguiu, fir­me, até que a morte, aborrecida com a inusitada demora, decidiu fechar a carranca e pôr fim à incrível brincadeira.
 (Emir Bemerguy – “Santarenices” – 1975)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Primeiro poema para mamãe


O poema abaixo foi o primeiro feito por meu pai para minha mãe, no dia 02 de junho de 1954.

CONFIDÊNCIA

Triste de quem as rotas desta vida
Perlustra sem quimeras e ilusões.
Os sonhos são alívio e uma guarida
Para mágoas, revezes e aflições.

Tu também sonhas, meu amor, com medo,
E esta manhã, sorrindo, me afirmaste
Que comigo sonharas e um segredo
Eu ia te contar quando... acordaste!

Mas, dando término ao teu sonho, agora,
Revelo aqui o segredo que não disse:
Meu coração há muito que te adora
Apaixonadamente, BERENICE!...

(Emir Bemerguy - 02/06/1954)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ficarás



FICARÁS

Tens de partir!... Por longe que tu estejas,
Hei de te ver a todo instante aqui,
Rezarei por tua volta nas igrejas,
E uma saudade ficará de ti!...

Tu ficarás no ciciar da aragem,
Nas estrelas piscando, intermitentes...
Ficarás no sussurro da folhagem,
Na presença esquisita dos ausentes...

Ficarás nos queixumes que, à tardinha,
Soluçam jurutis e sabiás...
Nas manchas do arrebol que se avizinha,
Nas noites de luar tu ficarás!...

Ficarás nos matizes singulares
Do colibri, da flor,  da borboleta,
No milagre dos tons crepusculares,
Com nitidez verei tua silhueta.

No silêncio letal das madrugadas,
Quando mais punge a dor da solitude,
Insone, lembrarei cenas passadas,
Chorando um bem que conservar não pude.

Mas ficarás aqui, mulher querida,
Amenizando atroz desolação:
Ficarás no infortúnio de uma vida,
Na saudade mortal de um coração!...

(Emir Bemerguy - 30/04/1967)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bilhete


Bilhete enviado por papai para Vicente Fonseca, quando este musicou seu poema "Praça da Matriz", cuja letra já mostrei em outro post. A cópia do bilhete nos foi gentilmente enviada pelo autor da melodia.