domingo, 25 de novembro de 2012

Casamento

Subindo a rua Bacuri

Casados!...
No dia 21 de junho de 1958, às cinco horas da tarde, meu pai e minha mãe se casaram em Óbidos (PA),onde morava a família dela. O curioso é que minha mãe, trazida pelo seu pai e demais familiares, foi a pé para a igreja, levada por seu pai e demais familiares, subindo a famosa rua Bacuri, onde ficava a casa de seus pais, como mostra a primeira foto. Era o início de um casamento feliz, que durou 53 anos e produziu oito filhos, seis biológicos e dois adotivos.

sábado, 24 de novembro de 2012

Luz que não se apaga

Mamãe perguntava de vez em quando para papai para quem eram os versos que ele fazia (as musas dos poetas sabem que sua inspiração vem delas, mas não custa nada perguntar...) Papai respondeu em um soneto:


LUZ QUE NÃO SE APAGA
(À minha Berenice)

Tens o costume de indagar, brincando,
Para quem são os versos que componho...
Mas transparece, disfarçado e brando,
Certo ciúme em teu olhar tristonho.

Por isso mesmo é que, de vez em quando,
Toda minh’alma num soneto eu ponho,
Para provar que ainda está brilhando
A velha estrela do meu lindo sonho.

Se procurares, acharás, dispersos,
Pedacinhos de ti em tantos versos,
Detalhes do teu porte singular.

Se for preciso repetir, repito,
E até a lua escutará meu grito:
- Hei de morrer, amor, a te adorar!

10/06/1968

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A feia

"Aquela moça tinha pedido a Deus para ser feia e tinha exagerado na graça recebida"

Frase que extraí do diário de meu pai de 1955, onde ele comenta sobre uma moça que encontrara que era, digamos, um pouco desprovida de atrativos naturais...

Foto de "seu" Marçal


Este é seu Marçal, companheiro de pescarias de meu pai, hoje com mais de 90 anos (o único pescador que meu pai admitia ter pegado mais pescadas do que ele...). A foto foi tirada por papai numa das muitas pescarias que os dois fizeram juntos na Ponta Negra, na frente de Santarém. A curiosidade em relação a esta foto é que é uma das únicas tiradas por meu pai depois de casado. Na adolescencia, ele gostava de fotografar e ajudava meu avô, que era fotógrafo. Mas depois do casamento, a situaçao financeira apertada não permitiu continuar o hobby.

A saboneteira e a rosa


Durante toda sua vida, uma das formas mais comuns de meu pai expressar seu amor por minha mãe foi lhe dando rosas. Ela as encontrava nos mais diversos lugares: debaixo de sua xícara de café, nas gavetas, em cima da penteadeira, etc, quase sempre acompanhadas de versos. Mas eu nunca imaginei a função desta saboneteira, que encontramos em cima de um dos armários de papai. Mamãe foi que nos contou: ele andava com ela no bolso, com uma tesourinha dentro, e quando ia à igreja, o que fazia quase todos os dias, “roubava” uma rosa do jardim ali existente, usando a tesourinha para cortar o talo e a saboneteira para guardá-la com cuidado, até chegar em casa e entregar a flor para minha mãe. Ela protestava (sem muita convicção): “Meu bem, o padre quando descobrir vai ralhar com você!...” Ele dava um sorriso e não respondia, pois no coração dos poetas, roubar rosas para entregar à sua amada nunca foi crime. Dentro da saboneteira ainda estão restos de pétalas da última rosa que ele ofertou à minha mãe. 

Meu primo Paulo Bemerguy escreveu o seguinte quando soube desta história:

“O que tem a ver uma saboneteira com uma rosa?
Uma saboneteira tem tudo a ver com uma rosa quando ambas caem nas mãos de um poeta.
Emir Bemerguy se foi.
Ficaram 20 livros prontinhos para serem publicados.
Ficou uma saboneteira com uma tesourinha dentro.
Ficou a lembrança de muitas rosas - dezenas, centenas - que ele usou para externar seu amor.
Ficou a lembrança de que as coisas simples da vida é que, verdadeiramente, têm beleza e odor.
Têm olor e sabor.
Encanto e ternura.
Tudo em sintonia.
Tudo em harmonia.
Como uma saboneteira que guarda uma rosa.”

Belterra


  Casa onde Emir Bemerguy viveu em Belterra, quando seu pai ainda trabalhava para a Ford. A foto foi feita em 2010, quando ele, levado pelo genro e um dos filhos, reviu a casa, onde não ia há muitos anos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O espelhinho de cristal



Este envelope, o espelhinho, e o seu verso, onde se vê a foto de Getúlio Vargas, foram os meios originais através dos quais meu pai declarou seu amor pela minha mãe no dia 14 de junho de 1954, às 08:00 horas da noite. Eles estudavam juntos na Faculdade de Odontologia do Pará, gostavam um do outro, mas nenhum dos dois tinha coragem de declarar seu amor. Meu pai comprou o espelho, colocou-o no envelope e o entregou a minha mãe, que, segundo papai, empalideceu ao ler o que estava escrito no envelope. Ao pegar o espelho, ela primeiro viu a foto do Getúlio Vargas, o que foi motivo de brincadeiras entre os dois por toda a vida. Quando ela se viu refletida no espelho, um grande sorriso aflorou em seu rosto. Dois dias depois, ela deu a meu pai uma foto dela com uma dedicatória em que também declarava seu amor. Este amor que, quase 60 anos depois, até a morte de meu pai,  eu meus irmãos fomos testemunhas de que permaneceu firme e forte. Mamãe guarda o espelho e o envelope até hoje. Meu pai contou, de maneira poética, o episódio, em um soneto que fez em 1968, que transcrevo abaixo:

ESPELHO DE CRISTAL

Era de ver-se a minha hesitação
Na doce-amarga fase que precede
O instante da amorosa confissão
Que a timidez paralisante impede.

Meu peito transformara-se na sede
Das inquietudes líricas que vão
Crescendo sempre, até que, enfim, se hospede
Um duradouro amor no coração

Mas o retrato da mulher amada,
Trêmulo, embora, em suas mãos de fada
Depus, um dia, de forma original:

Do brinde o laço azul ela desfez,
E achou, presa de intensa palidez,
Um pequeno espelho de cristal!...