domingo, 9 de dezembro de 2012

Família


  Da esquerda para a direita: Toninho, mamãe com Márcia nos braços, Telma sentada, papai e eu. A foto foi tirada por volta de 1966.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Trovas

As trovas estão os gêneros mais populares e simples de poesias. Meu pai fez muitas delas, até para ajudar a nós, filhos em eventuais tarefas escolares. Algumas delas:



ALGUMAS TROVAS

Sem a fé nós nada somos!
Quanto a isto não me iludo:
O tudo, sem Deus, é nada,
O nada, com Deus, é tudo!

Adeus, amor!... Que vazio!...
Terminou nossa aleluia...
Nos rastros do teu navio
Vai minh’alma, de bubuia...

Chorando, a mãe do bandido
Repetia o estribilho:
“Sei que ele é um perdido,
Mau, ladrão, mas é... meu filho!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Papai Noel dos pobres

 Publicado no blog "O Mocorongo", de Ércio Bemerguy

PAPAI NOEL DOS POBRES (antes do Natal)

Papai Noel, sou muito pobrezinho.
Não possuo, sequer, um sapatinho
Onde tu possas colocar brinquedos.
Mas não perdi ainda a esperança
De que, sabendo que sou tão criança,
Algo me tragas para os meus folguedos.


A tristeza que tive ano passado
Doeu demais – não sei se estás lembrado –
Porque na noite de Natal rezei,
Pedi um presente de mãozinhas postas,
Mas desconfio que de mim não gostas,
Pois nada havia quando despertei!


Mamãe me disse que és bem mais amigo
De infantes ricos, mas eu não consigo
Acreditar que sejas mesmo assim.
Lê nos meus olhos esta ânsia enorme
De quem sonhando com brinquedos dorme,
E não te esqueças, Pai Noel, de mim!


PAPAI NOEL DOS POBRES (depois do Natal)


Papai Noel, de novo me esqueceste.
Quando ontem à noite lá do céu desceste
Para brinquedos vires repartir.
No entanto, eu sei que ao lindo garotinho
Do suntuoso bangalô vizinho
Trouxeste tudo o que ele quis pedir!


Mamãe, de fato, estava com razão
Quando falou na tal predileção
Que manifestas por mansões grã-finas...
O resultado, Pai Noel, agora,
É que comigo a mamãezinha chora
Porque presente algum tu me destinas.


Talvez não venhas mesmo nunca mais!...
Eu passarei, tristonho, outros Natais,
Fazendo planos que tu não descobres...
Mas novas e muitas preces vou rezar, contrito,
Pois, apesar de tudo, ainda acredito
Que possa existir um bom PAPAI NOEL DOS POBRES!...


(Emir Bemerguy - novembro/1967

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Hino do São Francisco

Papai sempre gostou muito de futebol, e nutria especial paixão por seus times: São Francisco, em Santarém, Paysandu, em Belém, e Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. Um dia, numa conversa com Wilson Fonseca, o Maestro Isoca, torcedor do São Raimundo e seu parceiro de tantas composições, os dois fizeram uma aposta: em vez de um fazer a letra (papai) e outro a música (Isoca), como sempre faziam, iriam compor os hinos de seus clubes do coração, mas cada um teria que fazer letra e música. Naturalmente o Maestro Isoca, que além de músico excepcional, também escrevia muito bem, ganhou a aposta com facilidade, e logo o hino do São Raimundo estava pronto. Papai, que nunca havia feito uma música, confidenciou a seu compadre Isoca que desistiria, pois não conseguia fazer a música. Este, porém, lhe deu algumas “dicas” sobre inspiração musical, e disse que era para ele se tranquilizar, pois a música viria naturalmente na sua cabeça, mas que estivesse pronto a gravá-la assim que aparecesse, sob pena de esquecê-la rapidamente. Papai já havia quase esquecido da história, quando um dia, em pleno Cursilho da Cristandade, uma música surgiu insistentemente em sua cabeça. Como ele não havia levado gravador para a reunião, procurou seu compadre, que também estava participando do evento, e lhe contou seu dilema: provavelmente já teria esquecido a música ao retornar para casa. O maestro, porém, pegou uma folha de papel que achou por lá e pediu para papai assobiar a melodia. Improvisou no papel algumas linhas para servir de pauta, e ali rabiscou a notação musical da melodia que escutava. Após o fim do Cursilho, papai procurou novamente o amigo, pois havia esquecido completamente a música, como Isoca previra. Este, porém, localizando o papel amassado onde transcrevera a melodia, tocou-a no piano para papai. O Hino do São Francisco tinha sido salvo por um torcedor de seu mais ferrenho adversário...

Hino do "São Francisco Futebol Clube"

01/01/1969
Emir Bemerguy – letra e música

Tenho orgulho de ser "franciscano"
E uma intensa emoção me domina
Quando vejo vibrar, todo ano,
A ardorosa torcida azulina!

ESTRIBILHO
"São Francisco" valente de guerra,
Clube eleito do meu coração
Porque teu destemor não se encerra,
Nos estádios te chamam "LEÃO"!

Campeão sete anos seguidos,
Não te bastam, porém, tais vitórias,
E entre fogos, canções e alaridos.
Ganhas sempre mais taças e glórias

Se faltou neste canto triunfal
Dos teus feitos qualquer pormenor,
Tudo eu digo, exclamando, afinal:
"São Francisco", tu és o maior!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O olho de boto

Mais um trecho do romance "Maromba", onde, numa roda de ribeirinhos numa "ferra' de gado se conta um "causo" de boto:



- Apareceu em Santarém um cabuco desses lá do Brasir, que chega nos navio do Lóide. Dizque era namurador como o cão e ouviu dizer que ulho de buto é muito pai-d'égua pra arrumar mulher. 
- Isso eu garanto - proclama Carrapato. Nos meus tempo de rapaz sorteiro, eu andava com eles nos borso da carça e fazia miséria com a mulherada, seus menino! Eu nem gosto de me alembrar, que me dá vontade de chorar. 
- Mas deixa eu acabar, pitomba! - exclama Potoca, impaciente. O cuirão do macho mulherengo percurou arguém que vendia ulho de buto e comprou um, nuvinho em folha. Enfiou a praga no borso da carça, mas as coisa começaram a ficar insquisita pras banda dele. 
- Por quê? - indaga Caraxué, sorrindo. Ele teve encrenca com marido de mulher casada? 
- Que nada! Diz Potoca. Era até mais melhor que fosse isso. O garanhão deu foi pra falar fino, piscar pra homem e andar rebolando a bunda, feito fêmea! E só bigududo se engraçava dele! 
- Na cidade tem muita judiação - filosofa Totonho. Eu tô mardando que fizeram argum feitiço pro desinfeliz. 
-Tu quer adivinhar, mas tu não acertou! - zomba, vitorioso, o imaginativo narrador. Dispôs de sufrer o diabo, o bunitão acabou descobrindo o que tinham vendido pra ele era ulho de buta!... O cabuco, avacalhado, sumiu da cidade e nem cachurro de faro fino sabia onde ele se enfiou.
Gargalhadas estouram, sobretudo porque o crioulo sai andando a balançar as nádegas e a falar fino, como o herói da história. Mané Carrapato, meio bêbado, rola no chão, rindo, e Zé Potoca se baba de gozo com o triunfo quando Presidente os convoca: 
- Ei, seus cuirão! Vumbora que a bóia tá pronta, tinindo! 
E lá se vão todos, ainda se contorcendo de rir. Agora, em volta do moquém, se empenharão numa valente disputa de apetites. A carne suculenta e aromática, a farinha torrada, a jiquitaia especial e o limãozinho com cachaça à vontade farão milagres. Vão atirar efêmeros, mas merecidos dulçores sobre essas vidas intragavelmente amargas durante a maior parte do ano. 

(Emir Bemerguy - "Maromba" - 1975)

domingo, 2 de dezembro de 2012

A Seresta

  Texto retirado do blog "O Mocorongo", de Ércio Bemerguy:

UMA SERENATA PARA O DR. EMIR 
(Por José Wilson Malheiros)

Esta me foi contada pelo Emir.
Quando mais novo, ele adorava pescarias e fazia serenatas (bem comportadas, por sinal).
Sei que era fã do Nelson Gonçalves, do Dilermando Reis, do Laudelino, do Machadinho e de outros seresteiros competentes.
Inesquecível o seu programa na rádio, o "Poemas e Canções".
Pois bem, certo jovem, sabendo que ele gostava de serestas, prometeu que na primeira noite de luar, iria levar alguns amigos para tocarem violão ao pé da janela do poeta.
Não havia luz na cidade, mas a noite seguia embalada pelas asas da Lua, que escrevia com letras de prata a paisagem mocoronga.
Lá pelas tantas da madrugada, Emir é acordado pelos os acordes maravilhosos de um violão, que coloriam a quietude da noite.
Pelas músicas que estavam tocando, o violonista era um virtuose e estava apaixonado.
Ele ficou sentado na cama extasiado com o romance daquelas notas musicais que embalavam a madrugada, sem vontade de se levantar, abrir a janela para ver quem era o artista.
Depois de algum tempo, quase hipnotizado pelas melodias, seu coração começou a sonhar.... versos dançavam na sua inspiração, canções pediam para serem compostas...
Então, Emir resolveu abrir a janela, de mansinho... tomando o cuidado para não ser visto. Levou um susto enorme e o encanto acabou-se.
Sobre a calçada, uma vitrolinha de pilha, plebéia, daquelas que antigamente em Santarém se comprava da Zona Franca de Manaus, tocava toda orgulhosa um LP do Dilermando Reis.
O poeta, então, fechou a janela com cuidado, ajeitou a blusa de pijama, deitou-se, outra vez, na cama e foi dormir.
Jamais reclamou daquele concerto, para não estragar os sonhos dos rapazes...
Assim era Emir Bemerguy
=====

MAL  SEM CURA
 
Quando cintila em céu formoso a Lua,
Como se pedra preciosa fosse,
No coração da gente se insinua
Uma tristeza estranhamente doce.

Sempre gostei de, em meio à madrugada,
Escutar as românticas batidas
De um violão na rua enluarada,
A pontear canções enternecidas.

Ouvindo a voz bonita do cantor, 
Não posso reprimir reminiscências:
Do fundo d'alma emergem, já sem dor,
Recordações de lacrimais ausências...

Abro a janela e vejo: alguém acena
Ao trovador, detrás de uma vidraça...
Lá fora esplende a noite santarena
- Linda, meu Deus!... - E a serenata passa...

É tentação demais!... O mal antigo
Da boemia em mim se manifesta...
Não me contenho: o pinho vai comigo,
E eu me incorporo, eufórico, à seresta!...
 
(Emir Bemerguy - julho de 1968 - poema dedicado "aos caros amigos Edenmar Machado e Laudelino Silva")

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Cobra-Grande

  Trecho do romance "Maromba", que provavelmente será o primeiro livro de meu pai a ser lançado após sua morte:


Engolindo o derradeiro pedaço de lambuzante pé-de-moleque e limpando a mão melada na velha calça de mescla, Mingote Pica-Pau, um caboclo atarracado e meio bicudo, inicia narrativa da aventura que alega ter vivido: um encontro com a formidável “Cobra Grande” ou “Boiúna”, mito que povoa e aterroriza tantas insônias amazônicas. Pigarreia e começa:
- Nós vinha, eu mais o Raimundo Cuiteua, no batelão “Tira teima”, cheinho de canarana e premembeca. Como vocês sabe, o capim tá cada vez mais escasso e a gente se atrasemo na viagem. O sol já ia mergulhando ali pras banda do Roçado Alegre e nós atravessava aquela travessia do Marimarituba, com a vela marmente se tufando. O vento tinha quebrado muito e nós andava devagar.
Escarra, dá uma baita cusparada e vai adiante:
- Eu tava comendo na pá do remo umas fagulha de carauaçu muquiado. Aí o companheiro me cutucou e só fez amostrar com o dedo, mais branco que arma penada. Eu virei a cara pra ilharga e o coração velho quis sartar pela buca cheia de peixe e farinha: os faror da bichona faiscava na buca da nuite, como duas disconforme lanterna de carbureto!
- Vute! Então a coisa tava mesmo preta, Mingote! - comenta Catinga-de-Mulata. Eu só quero ver como vocês se desembrulharam da desinquietação.
- Mais depressa que relampo, nós sentemo a mão no remo e toquemo pra beira! - continua o varzeiro.
- E a Boiúna tava muito longe? Indaga Antônio Presidente.
- Que nada, seu menino! Tava daqui praquela guiabeira! Nós só tinha começado a travessia e a valença foi essa, porque se a gente já tivesse mais pro meio do rio, eu não tava aqui contando esse causo.
- Égua! Eu me arrupeio tudinho! - confessa Zé Potoca.
- Mas espera aí, sacana, que tu inda não viu nada, promete o empolgado narrador. - Nós puxemos o batelão até onde nós pôde e se enfinquemo no mato! Fiquemo ali trepado num galho de marizeiro, moroçoca como o diabo, mas a gente nem sentia as porquera, porque o medo era disconforme. Nessas hora não tem macho bom.
Chega, nesse momento, João Bucheiro, com uma garrafa de cachaça. Mingote interrompe a história e pede: - Me dá aí um trago dessa mardita! Deixa eu molhar o gogó pra acabar de contar.
Sorve uns goles no gargalo, enxuga a boca no ombro e retoma a palavra:
- O animarzão veio tomando chegada e fazia umas onda tão arta que jogaram o “Tira teima” lá em terra, como se fusse um barquinho mixuruca. A peste bufava como quinhentus buto junto e os zóio dela deixava dois clarão dentro d'água, iguarzinho como a lua faz quando foca lá de cima.
Enxuga o suor da testa e revela: - Só de me alembrar, inda me dá tremedera, e toda essa varja velha sabe que eu nunca fui fruxo. Nem de visage eu não curro. Mas a gente pensar que pode ser engulido vivinho... Credo!
- Eu tô nessa idade e nunca, até o dia de huje, achei macho pra Cobra Grande - interrompe, solidário, Antão Aquiqui.
Mas Pica-Pau ainda tem o que contar:
- A lua tinha saído e nós enxergava direitinho as marmota da eguona da cobra: Quando ela mergulhava, fazia um funir iguarzinho de terra caída, num espumaceiro dos diabo! Mas o que nós achamo mais pior mesmo, de parar o coração, foi os esturro da mardita Boiúna dos inferno. Ela dava, de vez em quando, uns ronco tão medonho que o Cuiteua me disse, baixinho: - Mingote, se sangue é fedurento, eu tô muito ferido.
A turma, tensa, nem sequer consegue rir da pilhéria e o herói do Marimarituba explica:
- Coitado do parceiro! Inda mais fruxo do que eu pra essas arrumação que derruba quarquer caboco, ele não aguentou o tamanho do susto e sujou tudinho o carção. Pensava que era sangue...
- E como é que acabou o causo? - interrompe Zé Potoca, impaciente para contar a sua experiência.
- Bom. Nós fiquemo ali tremendo e rezando no tuco do pau e a desgraçada fincando o pé: mergulhava e buiava... Parecia que ela queria brincar de assombrar nós e não tinha pressa de ir de vorta pra casa. Passou umas três hora naquela sem-vergonhice, até que arresorveu ir passear. Com o fugo da lua foi que nós vimo o monstro tudinho brilhando, de pupa à prua.
- Deu pra carcular o tamanho dela? - indaga Paulo Cascudo.
- Menino, o bichão foi saindo pra fora, como navio do Lóide que desatraca do porto da cidade. Deu um bordo e tomou o rumo do meio do rio. Pra ninguém dizer que eu tô mentindo, eu dou o tamanho da Boiúna por baixo: era uma cobra aí pruns trinta metro! Por Deus do Céu e Nossa Senhora!
- E vocês fizeram logo dispôs a travessia? - pergunta Antão.
- Que nada, mano! - replica o outro. - Nós fiquemo no marizeiro matando moroçoca e sofrendo frio até o dia butar a venta de fora. Aí nós atravessemo a travessia, ulhando pra tudo lado. Vute!

(Emir Bemerguy - Maromba - 1975)